
Inocncia de Lissa

Penny Jordan


CAPITULO 1
A sala estava escura e sombria e a multido de rostos estranhos, quase horrendos, provocava-lhe espasmos de pnico e terror. Ela queria correr e seus ps se colavam
no lugar. Sentia aquelas mos que pareciam querer arrancar-lhe a alma; sua cabea doa e a maltratava. Todas as esperanas de fugir dali escapavam-lhe entre os dedos,
pouco a pouco.
De repente uma porta se abriu e uma luz tnue fez cintilar um lampejo de liberdade. Um homem querido, cujo rosto conheci to bem, caminhou devagar em sua direo.
- Papai...
Sus olhos encheram-se de lgrimas amargas, desesperadas. Ele viera para salv-la de uma morte horrveL No entanto, quando pde v-lo mais de perto, percebeu que
se enganara, aquele no era seu pai. Todo o pavor que
a aniquilava voltou de uma s vez.
    Ela o reconheceu assim que pde enxergar-lhe os olhos. Jamais esqueceria aquele olhar duro e penetrante que a perseguia onde quer que fosse, para onde quer que
fugisse.
Seus gritos tornaram-se mais ltos, mais freqentes e os sons de sua prpria dor trouxeram-na de volta  realidade.
Lissa piscou os olhos mais de uma vez para ter certeza de que estava viva, s e salv em seu prprio qurto, o suor escorrla-lhe por todo o corpo e, enquanto se
recuperava do terrvel pesadelo, sentia calafrios percorrer-lhe a espinha.
    Vivera tanto tempo sem aflies... Fazia pelo, menos  trs anos que os pesadelos no a atormentavam, portanto,
isto no ocorria desde que deixara a casa de seus pais
e viera morar sozinha em Londres.
    J eram seis e meia da manh. Intil tentar dormir outra vez, se precisava aprontar-se dali a um hora.
    Lissa levantou ainda mais cansada do que quando se deitara na noite anterior e arrastou-se at a pequena cozinha de seu apartamento. Seus dedos trmulos alcanaram
a chaleira que encheu de gua e ps para ferver. A nica coisa que poderia reanim-la quela hora seria um caf fumegant. O frio penetrava-lhe at os ossos; o inverno
parecia no ter fim.
    Isto a fez lembrar-se de Amanda. Sua irm diria que a melhor maneira de esquentar uma cama era deitar-se com um homem. Ela tinha um jeito todo especial de dizer
as coisas
mais loucas; sempre tivera um talento todo seu para chocar as visitas mais formais com as pequenas obscenidades que
lanava com ar ingnuo. Apesar de casada e me de duas lindas garotas; mantinha um ar  infantil e inocente talvez devido aos cachos loiros e ao par de enormes olhos
azuis.
    Pelo menos era assim que se lembraria dela para sempre. Ainda no conseguia acreditar na tragdia que dera fim  sua eslendorosa juventude,  sua existncia
cheia de brilho. Fazia apenas trs dias. oue recebera a notcia do acidente que levara sua irm e seu cunhado, bem como, os pais de ambos.
    Sorte traioeira e ingrata, por que permitira que uma tempestade derrubasse o pequeno bimotor que John piloitava naquela noite nefasta? Que justia era aquela
que levava vidas, to indispensaveis?
    Depois que Amanda se casara, no a via com freqncia e agora com o acidente estava muito preocupada com o estado emocional das sobrinhas e afilhadas, que no
momento estavam morando com Joel, cunhado de Amanda.
     Apesar de ter passado dos trinta, no entnto, Joel continuava solteiro, e tudo o que poderia oferecer como modelo feminino s crianas seria um rosrio de namoradas,
uma cada semana. E s Deus sabe que espcie de mulheres!
    Seu namorado estava a par das preocupaes de Lissa e lhe dera todo o tempo de que precisasse para que a situao fosse resolvida a contento. Por sorte, ela
conseguira uma entrevista com o advogado de seus pais bem cedo, e estava certa de ter chance de chegar ao escritrio pouco depois de Simon, no mximo por volta das
dez horas da
manh.
    Na noite anterior, ele a  levara para jantar e ambos haviam discutido todos os aspectos da questo. Simon era um homem interessado e amigo, e ela notava como
estava ansioso por ajud-la. Era verdade que ele tambm lutava por razes pessoais, ao tentar derrubar as barreiras que Lissa lhe impunha cada vez que tentava uma
carcia mais ousada.
    Pobre Simon... Talvez pensasse que ela o estava envolvendo em um jogo, uma espcie de manobra para atra-lo a uma compromisso mais srio. De que mneira poderia
perceber que ela escondia um segredo, sua concreta e absoluta averso ao sexo?
    Muitas vezes Lissa tentara explicar-se, mas sempre acabava recuando no meio do caminho. No se sentia  vontade com quem quer que fosse, para revelar as lembranas
que a envergonhavam, no suportaria que algum achasse graa de sua obsesso, que minimizassem seus sentimentos.
    Ah, quantas vezes perdera tempo na tentativa de apagar da memria uma infncia e adolescncia infelizes pela rejeio dos pais Eles jamais haviam se conformado
por terem una segunda menina e, menos ainda, por ser ela to oposta  bonequinha loira que tinham como primognita. Perdera a conta das vezes em que ouvira a me
desculpar-se na frente dos amigos pela falta de graa da filha mais nova, de cabelos sempre escorridos, com modos mais de moleque do que de menina bem comportada.
    Muitos homens teriam preferido sua elegncia extica  meiguice indolente de Amanda, no entanto Lissa ainda se enxergava como era na adolescncia: desengonada,
metendo os ps pelas mos, sentindo-se prisioneira de um corpo que no parecia o dela.
    Estava pensando nisso quando saiu para o escritrio do advogado, O dr. Lawson a conhecera ainda adolescente e sempre a admirara. No se cansava de elogiar-lhe
a beleza estranha, dizendo-lhe que se tornara uma mulher especial e fascinante. Tratava-a como uma filha, cheio de desvelo. Pelo menos na frente dele no se sentiria
intimidadada ...
   - Querida, no  vejo como Joel poder impedir que exera seus direitos sobre as crianas. Isto est escrito, datado e assinado por sua irm e seu cunhado. No
entanto, gostaria de que tivesse calma suficiente para examinar a questo por todos os lados. - Lissa quis interromp-lo, mas o dr. Lawson fez sinal para que o deixasse
terminar. - Joel  um homem rico e poderoso - Continuou advogado - e, se no me engano, mora numa das casas mais bonitas de Dorset. Entenda que ele pder proporcionar
s meninas uma vida cheia de regalias...
    - Dr. Lawson, sei de tudo isso e concordo que Joel leve muitas outras vantagens nessa histria, mas est se esquecendo do lado humano, do carinho matarnal, do
amor que essas crianas devem e merecem receber. Ainda mais agora que j n tm seus pais.
    O advogado alisou o bigode, pensativo.
    - Sei... sei, e ao que me const voc  tambm a madrinha de uma delas, no?
    Lissa confirmou com um gesto de cabea.
    - Pena que no seja casada, isto facilitaria muito as coisas. Sabe como os nossos juizes so conservadores. Estou certo de que se estivesse pelo menos noiva,
nosso trabalho seria bem menor.
    Lissa baixou os olhos, buscando outros argumentos em sua defesa. Tampouco Joel era casado, mas isto em nada ajudaria. A fortuna dele era conhecida na cidade,
assim como seu nome e sua posio Ele mesmo administrava todos os imveis da famlia, enquanto John tinha se encarregado das fbricas que haviam tornado os Hargrevs
to ricos e poderosos.
    O advogado percebeu-lhe a angstia e a trouxe de volta a realidade
    - Fique certa de que no h nenhuma rejeio legal a seu respeito, nenhum impedimento para que cumpra a determinao do testamento Por outro lado, pode apstar
que o Sr. Hargreaves far de tudo para dificultar sua atuao Vamos dar uma espiada na legislao, quem sabe nos surja alguma idia.  - Lawson ajeitou os culos
sobre o nariz e passou a examInar os papis que abandonara sobre a mesa, enquanto conversavam.
     Lissa pde vislumbrar uma ligeira mudana em sua fisionomia,  medida que ele avanava na leitura
    - Lissa, no quero que se impressione com o que vou lhe dizer, mas ainda h um aspecto da questo que precisamos discutir. Sabe que do ponto de vista de uma
corte de justia a reputao de uma pessoa ...
    Ela no o deixou terminar e levantou-se na mesma hora. Seus olhos demonstravam a indignao que as palavras do advogado lhe haviam provocado.
     - Por acaso est tentando me dizer que a corte pode no me considerar uma pessoa ntegra o suficiente para
cuidar das meninas? Pode me explicar como eles podero
provar uma coisa dessas? - Por instantes, esqueceu-se do orgulho e das boas maneiras. Sua vontade era explodir em insultos contra o pobre homem que, afinal, nada
tinha a ver com seus traumas. - No, dr. Lawson, no ser to simples assim. Ser que teria a coragem de investigar minha vida privada, questionar meus amigos ou,
talvez, submeter-me a um exame fsico para avaliar o quanto sou promscua? - Fez uma pausa, engolindo as lgrimas que ameaavam vir  tona. - Isto  ridculo! Uma
pena que Joel Hargreaves no corra o mesmo risco, afinal ele  rico e importante, enquanto eu no passo de uma pessoa comum e desconhecida.
    Lawson esperou que ela se acalmasse, olhava-a com uma expresso de piedade que a irritava ainda mais.
    - Meu anjo, est nervosa e excitada, posso compreend-la. No estado em que est, no tem como perceber os absurdos que acabou de dizer.  claro que ningum ter
o direito de examin-la ou coisa parecida, o que me preocupa  que Joel pode lanar mo dessas acusaes para derrot-la. Quero que esteja prevenida, entende?
    - No vou desistir da guarda das crianas, no vou! Lissa deixou o escritrio s pressas, como se fugisse de um ataque. Sequer percebeu o olhar espantado da
secretria, surpreendida com os gritos.
    Simon ficou quase to surpreso quanto a secretria de Lawson, quando viu Lissa entrar furiosa no escritrio.
    - Calma! Que bicho te mordeu?
    Aos poucos ela recuperou o flego e contou-lhe toda a histria. Simon ouviu com pacincia e, ao final, sua fisinomia iluminou-se.
    - Ora, parece que s temos uma soluo, meu bem. Vamos ficar noivos! - A reao de Lissa no foi a que ele esperava. Antes de ouvi-la negar, continuou: - Querida,
sabe o que sinto por voc, o quanto a quero e admiro. D-nos uma chance. Se estivermos noivos, garanto que estar em situao favorvel diante de qualquer corte
de justia. Poder oferecer o melhor dos trunfos: a perspectiva de constituir um lar, uma famlia para suas sobrinhas.
    Lissa desviou os olhos do rosto de Simon, pensativa. Ele lhe oferecia um anel em troca de seu corpo, e a culpa era dela mesma. Sua teimosia em esconder o trauma
que sofrera havia provocado a falsa interpretao de que o evitava para for-lo a comprometer-se. Uma nuvem de tristeza tomou conta de seus olhos.
    - No, Simon, no daria certo.
    Por um momento, a expresso de Simon a assustou. Ela no conhecia aquela raiva contida, aquela frustrao, embora o compreendesse. Um homem to consciente de
seus prprios atrativos e virilidade no podia aceitar sem desagrado a indiferena da mulher por quem se dizia apaixonado. Ah, se ao menos tivesse coragem de abrir-lhe
o corao, de falar nos seus tormentos..
    - No daria certo porque voc no quer, no  isso, Lissa? Meu Deus, que espcie de mulher  voc? Por que foge de mim como se eu fosse um monstro, cada vez
que procuro me aproximar? Sempre que tento lhe fazer um carinho, voc se comporta corno se ainda fosse virgem! Lissa,  esse o problema?
    Os olhos de Lissa encheram-se de lgrimas e ela no
soube o que dizer. De maneira inesperada ele havia chegado muito perto da verdade, mas ao invs disso alivi-la
s aumentava seu desconforto.
    Simon aproximou-se e a abraou quase com desespero. Eram oito meses de espera, oito longos meses de ansiedade por uma pequena reao que fosse, uma demonstrao
de que ela o desejava ou correspondia aos seus desejos.
    Quando, os lbios de Simon a procuraram, ela tremia de desespero. Sua conscincia dividiu-se outra vez em duas partes: uma lhe dizia que j o recusara o suficiente,
que era chegada a hora de ceder, mas a outra... A outra voz era uma voz cavernosa, dura, a lhe ordenar que parasse ali mesmo, que o impedisse de continuar a for-Ia.
Por um breve e torturante segundo, Lissa reviu aqueles olhos implacveis, o fantasma que lhe deixava a alma em frangalhos.
    Cada msculo de seu corpo enrijeceu, mas Simon pareceu no dar-se conta do mal que lhe fazia. Agora tentava
beijar-lhe o pescoo com avidez. Foi nesse exato instante que algum entrou na sala.
    Lissa tentou escapar das investidas de Simon e ver quem era. Para seu desespero e horror, descobriu Joel Hargreaves parado, a observar a cena com expressa de
desprezo.
    - Muito bem, Lissa, ento  assim que agora passa seu tempo. No mudou muito, pelo visto.
    Simon reagiu da pior maneira possvel. Como um garoto apanhado em flagrante, passou a mo pelos cabelos, provocando em Joel um odioso sorriso de ciumento.
    A figura imponente parecia encher toda a sala. Simon, incapaz de uma nica atitude em defesa de Lissa, recolhera-se a um canto, como se recolheria qualquer pessoa
que se visse diante de Joel e daqueles penetrantes olhos cor de avel, mas desta vez ela no o deixaria sem resposta, ele no sairia vitorioso.
    - Joel, quanta honra! Pelo que vejo tambm voc continua a intrometer-se onde no  chamado. O que voc veio  fazer aqui? Procurar alguma nova evidncia de que
no sou digna de obter a custdia das crianas?
    o sorriso debochado deu lugar a urna expresso grave e acusadora.
    - No precisarei procurar coisa alguma, moa. Temos um processo repleto de documentos, fatos e histrias que me garantem a vitria. Eu mesmo tive o cuidado de
examinar tudo, detalhe por detalhe.
    Lissa sentiu vontade de gritar, agredi-lo com a primeira coisa pesada que encontrasse pela frente. No era verdade, Joel no podia estar falando srio. Que documentos
seriam esses, a que ele se referia?
    - Quem  voc para atirar a primeira pedra; Joel? - acabou explodindo.
    Ele a mediu dos ps a cabea, provocando-lhe um calafrio. Tanto tempo depois Joel ainda a intimidava! Diante dele sentia-se a pior das criaturas.
    - Lissa, no vim at aqui para discutir com voc. Gostana apenas de que pudssemos conversar e acertar alguns pontos sobre...
    - No temos nada para discutir, Joel. Basta saber que no vou desistir das meninas, haja o que houver. No permitirei que as roube de mim, ouviu bem?
    - Se estivessem vivos, seus pais no aprovariam que as cnanas ficassem em sua companhia
    Era verdade, Lissa sabia dIsso. Desta vez elehavia colocado o dedo na ferida. Tamanha insensibilidade devia ser mais um de seus incrveis talento, mas conhecia
bem a fama de Joel ele jamais poupava seus inimigos, portanto, no devia sentir-se magoada com as provocaes dele.Isso era s o comeo.
    - Joel, este  um escrtrio particular e s recebemos visitas com hora marcada Se quiser falar comigo, procure meu advogado, est bem? Mas desde j, fique certo
de que no desistirei de meus direitos
    Lissa deixou a saia decidida a ignor-lo, e fechou a porta com violncia atrs de si.
    Pouco depois Simon entrou e veio sentar-se na beirada da mesa.
    - Ento este  o famoso Joel Hargreaves, hein? A grande estrela das colunas sociais... Parece bem mais forte de perto.
     Ela manteve as duas mos sob o queixo e o olhou com desdm. Simon era mais um que sucumbia ao poder de Joel, mas isso no a surpreendia. Durante toda a adolescncia
presenciara a infinidade de homens e mulheres que se tornavam pequenos diante dele.
    Lembrava-se do quanto ela prpria ficara fascinada enquanto criana e mesmo na adolescncia. Ele era a imagem dos heris das histrias em quadrinhos: alto, musculoso,
moreno, com um sorriso estonteante. Sua pele bronzeada contrastava com os olhos quase dourados que tinham uma maneira toda especial de pousar nos interlocutores.
    Lissa assistira de perto ao seu infindvel desfile em companhia das mulheres mais bonitas da cidade, mas apostaria  todo seu dinheiro como ele jamais amara qualquer
uma delas de verdade. Sua fama de conquistador era conhecida e at invejada.
    - Jantamos juntos essa noite?
    Perdida nas lembranas, Lissa quase havia se esquecido da presena de Simon ao seu lado. Depois da presena marcante de Joel, o namorado lhe parecia apenas
um garoto desajeitado e ftil, sem o menor atrativo. Ao recordar as investidas amorosas de h pouco, recuou e encostou-se no espaldar da cadeira, rezando para que
ele no se tornasse inconveniente outra vez. No podia correr  o risco de agredi-lo e perder o emprego, naquela altura. Seu trabalho era a nica garantia de poder
estar com as meninas, ainda que fosse apenas durante os fins de semana.
    No momento, tudo o que tinha a oferecer era um pequeno apartamento, simples e modesto. No entanto, aquelas crianas eram todo o seu futuro e por elas estava
disposta a crescer, a tornar-se uma pessoa forte e equilibrada. Nem mesmo Joel Hargreaves poderia impedi-la de ir em frente.
    Desanimada, Lissa examinava a carta pela vigsima vez desde que a recebera, havia trs dias. Depois do encontro tenso com Joel, no escritrio de Simon, tinha
julgado que no o veria mais at o dia em que se defrontassem perante o juiz.
    Que espcle de assunto ele queria discutir, para pedir que fosse at sua casa no proximo fim de semana? Por mais que pensasse, no chegava a nenhuma concluso.
A idia de rev-lo a atemorizava, aquilo poderia fazer parte de um plano qualquer para destruir suas chances de conviver com Emma e Louise. Vindo de Joel tudo era
possvel.
    Por diversas vezes esteve a ponto de reconsiderar a oferta de Simon, No fosse pelo fato de no conseguir descobrir o menor interesse dele pelas meninas, sentir-se-ia
tentada a aceitar a proposta de noivado. Isto eliminaria de vez qualquer acusao que a ameaasse de perder a causa. Uma mulher comprometida, noiva de um arquiteto
bem-sucedido, no seria alvo fcil de suspeitas levianas. Enquanto limpava e arrumava seu pequeno apartamento Lissa tentava encontrar alguma desculpa para faltar
ao encontro indesejado. Sentia-se numa encruzilhada: se fosse poderia ser vtima de uma cilada e. tudo iria por gua abaixo; se faltasse, Joel poderia usar a circunstncia
como uma prova contra ela, argumentando que desejava fugir de um bom entendimento.
    Sem perder mais tempo com hipteses, Lissa pegou uma valise no armrio e a encheu com as primeiras roupas que encontrou. S hvia um modo de acabar com dvidas.
     A viagem at Dorset era relativamente longa e o melhor era tentar chegar l ainda antes do anoitecer.
    O trnsito no centro de Londres estava congestionado e Lissa levou mais tempo do que imaginara para atravess-lo. O servio de meteorolgia anunciava pelo rdio
uma tempestade de neve e ela apressou-se em apanhar o casaco no banco de trs,
    Duas horas e meia depois atingia os arredores de Dorset,
onde ficava Winterly, a casa dos Hargreaves. O frio era intenso e Lissa pensou em parar para tomar um caf bem quente. Uma vozinha ntima lhe dizia que estava sendo
covarde, que tentava retardar o momento de se ver frente a frente com Joel, mas ela a ignorou.
    O povo da cidade costumava reunir-se aos sbados para as compras e Lissa custou a encontrar um lugar menos lotado onde pudesse estacionar e sentar-se um pouc
para descansar.
    Uma garonete sorridente veio ao seu encontro. Ao ouvir o sotaque com que se acostumara desde a infncia. Lissa sentiu uma onda de notalgia invadir-lhe. Tanto
tempo longe, tantas novas experincias, e ainda na se sentia  vontade em sua prpria cidade Apoiou o queixo sobre os punhos fechados e procurou enxergar atravs
dos vidros embaados,  procura de algum rosto conhecido.
    Onde estariam todos eles agora, aqueles grupos de ginasianos alegres que animavam as ruas aps as aulas Provavelmente tinham se casado e formado famlia, era
capaz de nem reconhec-los mais... S ela havia  fugindo de um ambiente que se tornara hostil. Quantas vezes, em Londres, aquela estranha sensao de viver em exlio
no a perturbara, trazendo a dolorosa saudade dos tempos em que ainda era uma adolescente ingnua incapaz de acreditar na maldade alheia...
    De repente, uma voz feminina a chamou da mesa ao lado:
    - Lissa,  voc mesma?
    - Helen Martin..
    A outra mulher riu e Lissa sentiu-se um pouco embaraada
    - Helen Turner, querida, eu me casei. Posso sentar com voc?
    - Claro, por favor.
    Helen a estudava de alto a baixo e Lissa esperou com pacincia que terminasse. Haviam sido grandes amigas... antes do incidente.
    - Soube da tragdia por que passou e lamentei muito a morte de Amanda e de John. Deve ter sido um grande choque para voc, no  mesmo? - Lissa quis dizer alguma
coisa, mas a amiga continuou: - E as meninas, pobrezinhas ainda bem que Joel se encarregou delas. Para ser sincera, no consigo imagin-lo cuidando de crianas,
mas sempre  melhor do que nada. Ele continua bonito?
    - No o tenho visto ultimamente, Helen. Estou indo agora para Winterley, visitar as crianas. J que soube de tudo no foi informada de que eu tambm fui nomeada
tutora das meninas? - Lissa no podia perder a oportunidade de mostrar quela tola que fora absolvida de seu passado.
    - Hum, hum,  madrinha de uma delas, certo?
    - Errado, sou madrinha das duas.
    Helen virou-se para um garotinho que viera sentar-se ao seu lado, e estava a ponto de derrubar o copo de suco de laranja sobre Lissa.
    - Pare com isso, Fred! E voc, ainda no se csou? Sempre esperei que fosse a primeira entre ns... Imaginei que j tinha uma penca de filhos.
    - Errou outra vez. Continuo solteira.
    Helen trazia-lhe de volta as idias ingnuas de sua adolescncia. Naquela poca afirmava aos quatro ventos que seria a primeira a ter um marido... Que ironia!
Ningum adivinhara o verdadeiro motivo de sua pressa em sair da casa dos pais, aquela enorme carncia de amor que a levava ao desespero.
    Era muito jovem, estava numa fase em que a menor angstia tomava propores de tragdia. Tudo era ainda novidade para seu corao recm sado da infncia.
    Helen no tirava os olhos do rosto maquilado com perfeio e dos cabelos bem tratados e brilhantes da amiga.
    - Est muito bem, Lissa, por pouco no a reconhecia. Desde que seus pais a tiraram da escola, nunca mais tive notcias de voc. Pensei que jamais tornaria a
v-la depois daquele dia. Ainda me culpei por muito tempo, depois que tudo aconteceu. Se eu no tivesse insistido para que fosse comigo  festa, teramos sido companheiras
inseparveis e ainda nos visitaramos com freqncia. At hoje no entendo o que houve..
    - Ora, tudo no passou de tempestade em copo d'gua,,
    - Foi o que pensamos l em casa. Lembro-me de ter ouvido meu pai comentar muitas vezes que seus velhos eram rigorosos demais com voc.
    A expresso de Lissa tornou-se angustiada, triste. A ltima coisa que esperava era deixar-se envolver por recordaes que a fariam fraquejar diante de Joel.
Mas Helen no podia saber, no tinha como adivinhar.
    - Lissa... O que aconteceu naquele quarto? Tudo o que, me lembro  da confuso que se Instalou na festa quando seu pai irrompeu na sala seguido por Joel Hargreaves,
e no a encontrou entre ns. Algum apontou a escada e lembro-me bem de que me senti pouco  vontade, s pensando que voc tinha acabado de sublr com Gordon Salter.
    Lissa apertou a xcara de caf entre as mos para que a outra no percebesse o quanto tremiam. Quando Helen consultou o relgio e ergueu as sobrancelhas, uma
espcie de alvio a invadiu.
     - Cus, so quase quatro horas, prometi a Bili que
o encontraria na porta do supermercado. Preciso apressar. Prazer em rev-la, Lissa, at outro dia.
    Lissa a acompanhou com os olhos, at que desapareceu pela porta principal, sem se importar com os protestos do menino que arrastava pelo brao.
    Ainda levou alguns minutos para relaxar e tomar o que havia sobrado do caf. Seu olhar perdeu-se no passado, em suas mais amargas recordaes. O que para a amiga
no passara de um incidente desagradvel, para ela significava. o tormento que mudara todo o curso de sua vida.
    Aquela festa... Lembrava-se de como se sentira excitada diante da possibilidade de estar entre os amigos, na casa de  Gordon. Tinha apenas quinze anos e a reunio
lhe parecia a coisa mais importante do mundo. No entanto seus pais rejeitaram a idia, sem ao menos deix-la terminar. Eles jamais aprovaram suas amizades e usava
argumentos ridculos para impedi-la de frequentar a casa de qualquer um deles. No que fossem marginais, mas tampouco pertenciam s famlias tradicionais da cidade,
como os amigos de Amanda. No eram o que podia se chamar de "filhos de gente bem".
    Naquele sbado os velhos iriam a um jantar na casa de John Hargreaves, quando anunciariam o noivado de Amanda. Lissa tivera permisso para passar a tarde em
companhia de  Helen Martin, sob a promessa de ir para casa no momento em que a amiga sasse para o baile.
  Naquela poca,  Gordon Salter era uma espcie de dolo da turma, todas as meninas do colgio estavam apaixanadas por ele. No entanto o rapaz parecia inconquistvel
e somente Ljssa era premiada, s vezes, com sorrisos nsinuantes.
    Helen havia passado a tarde inteira tentando convenc-la a desobedecer aos pais. Dizia-lhe que eles no teriam como saber que comparecera  festa, que estariam
de volta antes que chegassem do jantar dos Hargreaves.
    Lissa sabia que no era certo, mas tampouco achava justa aquela proibio. Todos os desejos e caprichos de Amanda eram satisfeitos de pronto, enquanto os seus
jamais mereciam um mnimo de ateno.
    Os velhos rumaram para a casa dos Hargreaves a tempo para que se aprontasse e encontrasse com Heln, no porto dos Salter. Lissa lembrava-se de no ter um vestido
apropriado para festas e assim resolvera tomar "emprestado" de Amanda uma saia curta que mostrava mais da metade de suas pernas bem feitas. Valendo-se do estojo
de maquilagem da irm, acabou por carregar um pouco no delineador, mas diante do espelho achou-se tima, satisfeita por parecer um pouco mais velha.
    Helen no a esperava no porto, conforme tinha prometido e Lissa vacilava em entrar, quando o prprio Gordon a avistou e correu ao seu encontro, beijando-a no
rosto. Lissa achou-se importante diante do olhar invejoso das amigas que a observavam entre cochichos.
    Sem sber dirito como, viu-se com um copo de cubalibre no mo e o sorveu deliciada. O efeito da bebida no tardou, e Lissa sentiu-se descontrada e feliz.
Nunca se vira to livre, to  vontade... Por isso, aceitou alguns copos a mais e concordou em subir ao quarto de Gordon... Uma sensao de orgulho a invadia por
constatar o desejo que despertava nele..
    Ela no estava embriagada, mas a quantidade de lcool que tinha ingerido fora o suficiente para despertar-lhe emoes desconhecidas. Abandonou-se quela espcie
de frio que lhe descia pela espinha e provocava-lhe arrepios.
No trocaram mais do que beijos inexperientes e infantis prprios de quem jamais passara de olhares pIatnicos, mos dadas, bilhetes inocentes.
    Quando a porta do quarto se abriu com estrondo, no reconheceu aquele homem, pois no conseguia ver direito contra a luz do corredor. Segundos depois, seu pai
irrompia como um furaco no ambiente escuro e a puxava pelo brao, sem lhe dar tempo de compor-se, sem deix-la esboar um nico gesto de defesa.
    Depois fora um suceder de cenas terrveis que at agora a perseguiam em pesadelos e lembranas abminveis. O pai a arrastara escada abaixo entre o olhar escandalizado
de amigos e desconhecidos, a me a crivava de perguntas que ela no sabia como responder, e Joel... Ele estava l o tempo todo como uma testemunha implacvel .
    De nada adiantaram as splicas para que o retirassem da sala. Tudo o que o pai respondia era que Joel precisava saber com que espcie de cunhada o irmo dele
teria que conviver.
    Ah, como o odiara por permanecer diante dela, de seu olhar suplicante, dos soluos descontrolados, os gritos de vergonha e humilhao!
    De nada adiantaram os protestos e as afirmaes desesperadas de que ela e Gordon no haviam passado de simples beijos. Eles no lhe deram crdito e, para aumentar
sua agonia, o olhar acusador de Joel Hargreaves continuara fixo em seu rosto desfigurado pelas lgrimas.
    Mas o vexame no terminara naquela noite. Uma sucesso de interrogatrios e acusaes a perseguiram muitos dias at que fosse enviada para o internato. Eles
queriam poupar Amanda da convivncia com uma irm rebelde e irresponsvel; queriam evitar comentrios que sujassem a reputao de sua cndida e intocvel filha.
Muitos anos se passaram antes que Lissa aceitasse o incidente como uma coisa superada em sua vida, mas nunca se permitiu outra vez ser tocada, acariciada, confortada
como fora naquela noite por Gordon. Cada vez que um romance a encostava na parede, cada vez que conseguia interessar-se por algum e o relacionamento evolua, l
estavam os olhares de censura de seus pais... e de Joel: implacveis, impiedosos, acusadores. Ela jamais se esqueceria de que suas emoes mais inocentes haviam
sido expostas  crueldade e  malcia de Joel Hargreaves.
    - Senhorita, deseja mais alguma coisa?
    Lissa olhou para a garonete sem v-la, perdida em suas lembranas. Levou algum tempo para entender que estava tomando o lugar de pessoas que aguardavam em fila,
na entrada da lanchonete.
    O frio l fora parecia mais intenso, talvez agravado pelas recordaes que no pudera evitar depois de encontrar-se com Helen.
    Antes de ligar o carro, Lissa descansou a cabea sobre o volante, pensativa, incerta quanto ao futuro. Perguntava-se se algum dia seria capaz de envolver-se
com um homem de forma integral, sem culpas, sem angstias. Agora que voltaria a ter contato com Joel, talvez lhe fosse ainda mais difcil superar o trauma. Seu pai
a condenara, ao insistir que mentia todo o tempo, mas no era o rosto dele que via cada vez que algum a abraava e beijava. Um suor frio descia-lhe pelas tmporas
e a fazia tremer, e um pavor incontrolvel a obrigava a recuar, como se fosse se deparar... com Joel.
    Simon exultara ao descobrir-lhe a virgindade.. Talvez tivesse atribudo esta condio de Lissa a algum tipo de reserva, conservadorismo, personalidade at. Se
ele pudesse conhecer  verdade, no se entusiasmaria tanto e, talvez, a afastasse com desprezo. Mas ele jamais saberia que boa parte de sua feminilidade fora destruda,
quando era pouco mais que uma criana.
    No momento em que atravessou os portes de Winterl, Lissa j havia recuperado o autocontrole. Ao v-la saltar, de seu carro e caminhar em direo  entrada da
casa, com passos firmes e decididos, o nariz empinado, ningum poderia dzer que acabara de reviver os momento mais torturantes de toda sua vida. Nem mesmo Joel,
que a observava atrs de uma vidraa, com um sorriso zombeteiro nos lbios.
    Ele sempre admirara sua graa, a leveza de seu andar as belas e longas pernas de contornos sensuais. Cada movimento de Lissa era um desafio  masculinidade de
qualquer homem em seu juzo perfeito.
    Joel no estava acostumado a ser rejeitado, e o desprezo que lia no olhar de Lissa, desde a adolescncia, sempre o intrigara.
    Certa vez tentara discutir o assunto com Amanda, mas a cunhada tinha posto um ponto final na histria com uma observao pouco simptica de que Lissa era uma
garota estranha. Deixara visvel sua pouca vontade de discutir o carter da irm mais nova.
    Estranha... Sim, talvez Lissa fosse mesmo estranha, mas era uma das mulheres mais desejveis que j conhecera. Ela nunca lhe permitira um mnimo de aproximao,
mas agora as circunstncias eram outras. Joel maldizia por ter reavivado a memria de Lissa quanto um episdio to insignificante do passado.
    Por que havia feito isso? Torcia para que sua falta de jeito no dificultasse um bom entendimento.
    - Entre, Lissa. Fico contente por voc ter resolvido vir.
    O cumprimento que ela lhe dirigiu, restringiu-se a um simples movimento de cabea, frio e indiferente. Lissa pedia a Deus que a ajudasse a controlar-se, pois
sua vontade era atirar na cara daquele insolente o turbilho de emoes negativas que ele desencadeava em seu corao. Ela o odiava por tudo o qu ele representava
em sua vida, pelos dias de angstia que vivera por culpa dele, pela destruio de seus sentimentos mais puros, e por t-la induzido a vir at sua casa.
    Joel interpretou aquele olhar gelado como uma espcie de ressentimento por t-la obrigado a abandonar o namorado em pleno sbado. Ele conhecia Simon Greaves
 bastante, e sabia de sua fama de homem galante e perSUaSIVO.
     - Melhor conversarmos em meu escritrio.
    Lissa lembrava-se bem de Winterly, das raras visitas  famlia do cunhado, durante as quais sempre se aborrecera. No entanto, jamais conhecera o escritrio para
onde Joel a levava, e surpreendeu-se com o requinte do ambiente de mveis pesados e muitos adornos em prata macia. Com toda certeza, o resto da casa havia sido
reformado, com exceo daquela pea, porque todos os demais cmodos eram modernos, mobiliados de maneira mais descontrada.
    No momento em que Lissa acomodou-se na poltrona de couro que formava com um grande sof verde-oliva o ambiente de estar, uma mulher que aparentava ter mais de
cinqenta anos irrompeu porta adentro com expresso alterada.
    - Sr. Joel, no posso continuar a trabalhar com aquelas meninas no meio da cozinha; elas mexem em tudo! Por favor, exijo que tome uma providncia o mais rpido
possvel. No faz parte de minhas funes tomar conta de crianas e..
    - No se preocupe, sra. Johnson, apenas d uma espiada nelas enquanto converso com a srta. Lissa. Daqui a pouco eu mesmo irei busc-las.
    A mulher deixou o escritrio da mesm maneira pouco educada com que havia entrado, e Lissa ergueu a sobrancelhas, dirigindo-se a Joel com um misto de espanto
e frieza.
    - Isto  o melhor que voc pode proporcionar s suas sobrinhas?
    Sua surpresa cresceu ante o ar desconcertado de Joel.
    - Voc, no sabe como  difcil encontrar uma bab. Desde o acidente, j tentei de tudo: agncias, anncios, recomendaes, mas no obtive sucesso. Creio que
existe
algum tipo de preconceito contra homens solteiros, e a maior parte das agncias no tm seno jovens de dezoito anos em seu cadastro, entende?
    Lissa no pde evitar a sensao de triunfo ao conhecer os problemas que Joel enfrentava.
    - Quando poderei v-las, Joel?
    Daqui a pouco... assim que terminarmos nossa conversa
    - Como tem passado? - Lissa odiava-se por ter feito a pergunta. Embora fosse uma curiosidade normal, detestava a idia de depender de Joel para qualquer informao.
    Ele sorriu, como se tivesse ouvido seus pensamentos.
     - Posso imaginar como se sente, Lissa, sei que deve ser duro para voc ter que limitar-se a receber notcias das meninas atravs de mim. Pode me dizer por que
tem tanto medo de mim?
    - No tenho medo de voc nem de ningum. Apenas no lhe tenho muita simpatia, como j deve saber.
    A gargalhada de Joel a deixou indignada. Por mais que se esforasse, no conseguia atinar com o que o fizera rir daquela maneira.
    - Vai me dizer como elas esto?
    - Aparentemente bem. Louise, por ser a mais velha no engoliu direito a histria de que seus pais sguiram para uma longa viagem. Quanto a Emma, mal consigo
entender o que fala, preciso de que Louise interprete o que diz, com muita freqncia. Elas tm perguntado por voc. Nunca soube que lhe fossem to chegadas..
     Lissa no se deu ao trabalho de responder. Na verdade, Amanda costumava deixar-lhe as filhas, quando planejava algum programa de fim de semana, o que resultara
num aprofundamento do afeto. As crianas adoravam a tia, e a recproca era totalmente verdadeira
    - Voc realmente se importa muito com elas, no ?
    A observao de Joel a colocou imediatamente na defensiva. Estava enganada, ou tinha mesmo percebido uma certa dvida na voz dele? O que Joel estava pretendendo
insinuar era que ela no dera ateno suficiente s sobrinhas?
    - Que espcie de pergunta  essa? - explodiu, os olhos verdes faiscando - Nunca ouviu dizer que adoro crianas?
    - Ento, por que at hoje no tomou nenhuma providncia para ter seus prprios filhos?
    Mais do que depressa, Lissa desviou os olhos do rosto de Joel. Jamais permitiria que ele percebesse seu estado de confuso. A ltima coisa que desejava era demonstrar
como se sentia em relao ao amor, a filhos, casamento... De uma certa maneira, havia canalizado toda sua afetividade para as garotinhas, e era assim que devia ser.
    - Voc no tem nada com isso - respondeu, seca. - Mas fique certo de que no desistirei das meninas. No importa o que possa fazer para dificultar minha vida,
nenhum juiz no mundo permtiria que Louise e Emma cresam sem amor, aos cuidados de uma bab, uma estranha. Alm do mais, esta foi a vontade de Amanda, e tem de ser
respeitada. Voc no as ama, Jol, pelo menos no tanto quanto eu. - Seus olhos encheram-se de lgrimas e o corao comeou a bater acelerado. Ah,, ela no podia
fraquejar; Joel  no merecia presenciar sua revolta, sua dor.
    - Parece que se esqueceu que elas so filhas de meu irmo, Lissa! Quero o melhor para elas!
    - No! O que quer  tir-las de mim!
    Joel parecia admirado ante aquela demonstrao de fria. Seu olhar encheu-se de indignao.
    - Deixe de ser ridcula! No tenho nada que ver com sua mania de perseguio. Sempre soube que voc faz tudo para me evitar, a prpria Amanda deixava de convida-la
para alguma festa em que eu estivesse presente mas jamais entendi o porqu! Talvez possa me explicar.. Tem alguma queixa de mim, Liss?
    O rosto dela tornou-se vermelho ante o olhar cada vez mais surpreso de Joel.
    - No vai dizer, no ? Ento, quem sabe eu possa adivinhar..: Pode ser que seu ressentimento tenha surgido naquela noite em qe a surpreendi agarrada ao seu
namorado, num quarto escuro. Ora, acho que devia me agradecer por t-la livrado de uma desgraa. Uma gravidez, quela altura, no seria nada divertida, no concorda?
    Lissa senti a sala rodar  sua volta. Precisava gritar, livrar-se daquele n na garganta que a sufocava, chorar, arrancar o sorriso cnico dos lbios de Joel
com as prprias unhas! Sua revolta era tamanha que mal percebeu a expresso arrependida com que ele a observava.
    - Lissa, oua-me. No vejo com bons olhos a idia de ter que dividir as crianas como se elas fossem objeto, de v-las pulando da minha casa para a sua como
se fssemos dois inimigos. Elas precisam de estabilidade, segurana, coisas que perderam com a morte dos pais. Tenho pensado muito nisso e cheguei  concluso de
preciso de uma esposa e no de uma bab.
    As palavras de Joel a estarreceram. Se ele se casasse, com toda a certeza ela perderia a custdia das garotas. Ficaria em absoluta desvantagem perante o tribunal.
    - Nenhum comentrio? No quer saber o nome futura esposa?
    - Por que me interessaria por um assunto que s diz respeito a voc?
    - Ao contrrio, tem tudo a ver com voc, Lissa. Acho que encontrei  a nica soluo vivel para que Emma e Louise tenham um verdadeiro lar, e esta soluo est
nas nossas mos. Case-se comigo!
    Lissa arregalou os olhos, incrdula.
    - Eu e voc.., juntos? Deve estar brincando.
    - Lissa, no somos mais crianas, pense um pouco.
    - Ns no nos amamos, nem ao menos simpatizamos, um com outro! Que idia maluca  essa?
    O olhar de Joel transformou-se de maneira inesperada e ela estremeceu. Seria possvel que a desejasse, como parecia querer insinuar?
    - No estou pensando apenas num casamento por interesse. Na verdade, Lissa, sinto uma atrao enorme por voc.
    - Joel, que brincadeira mais estpida! Todos comentam sua averso a qualquer compromisso amoroso, quanto mais a casamento! Amanda vivia dizendo que voc jamais
deixaria de ser um solteiro convicto.
    - Eu tambm pensava assim, antes de John morrer.
    - E se eu recusar?
    - Bem, a terei de procurar outra pessoa, mas confesso que preferia voc, Lissa. A escolha  sua, clar. Entenda bem: no estou lhe pedindo que faa nenhum sacrifcio.
No desejo um casamento apenas formal. No, estou disposto a assumir inteiramente a relao, a tornar-me um marido e pai exemplar.
    Lissa sentia-se estremecer, enquanto ele se aproximava. Seu primeiro impulso foi levantar-se e fugir dali, o mais depressa que pudesse, mas fez um esforo sobre-humano
para controlar-se e continuou imvel, os olhos nos dele
    - Joel, no quero nada com voc,
    - Como pode ter certeza? Nunca nos tocamos-... Mais uma vez ele a ameaava, forava-a mudar sua natureza. Lissa tentou acalmar-se, entendendo que precisava de
toda sua lucidez para enfrentar aquele momento.., O que Joel lhe propunha no passava de um absurdo, mas lhe garantiria a custdia das crianas e, por outro lado,
jamais encontraria outra chance de vingar-se pelo que destrura em sua vida.
    O pensamento causou-lhe nuseas, contudo, Lissa obrigou-se a continuar pensando na possibilidade. Quando Joel, descobrisse que era frgida como uma pedra de
gelo a revolta dele sena indescritivel. No entanto, dificilmente,
voltaria atrs; o orgulho no permitiria que anulasse o casamento. Havia melhor vingana do que essa? Mas o principal era ter certeza de que poderia ficar perto
das duas sobrinhas, sem mais ameaas e sobressaltos. Cuidaria delas e lhes daria todo o amor e carinho que guardava no corao; No haveria mais a necessidae de
enfrentar uma corte de justia, no remexeriam fatos passados, tornando pblicas as acusaes que lhe haviam feito na adolescncia.
    Lissa comeou a andar de um lado para outro, sem se incomodar com o olhar de Joel que no a abandonava nem por um instante. Era uma situao estranha, como se
estivesse vivendo um dos costumeiros pesadelos. Havia qualquer coisa de loucura naquilo tudo, uma compulso Intima que a forava a aceitar logo, antes que o bom
senso retornasse. Sabia que se deixasse a resposta para mais tarde, nunca mais teria coragem.
    - Talvez voc tenha razo, Joel. Talvez seja a nica sada para a situao das meninas.
    Lissa notou o olhar de triunfo que Joel lhe dirigiu, e no pde deixar d sorrir. Se ele soubesse o que lhe passava pela cabea certamente no estaria to confiante.
No entanto, ao v lo caminhar em sua direo, foi tomada pelo pnico No, ainda no era o momento Precisava impedi-lo, no podia deixar que ele a tocasse Se Joel
descobrisse seu segredo antes da hora, os planos iriam por gua abaixo.
    - Tia Lissa! Tia Lissa! Ouvimos sua voz! - As duas crianas surgiram no meio da sala, os rostos afogueados de excitao.
    O olhar de Lissa encheu-se de ternura e compaixo, Deus, como pudera acontecer uma tragdia t grande na vida daqueles anjinhos!,
    - Tia Lissa, vai ficar aqui com a gente?
    - Sim, querida, ela vai ficar. - A voz de Joel soou como um blsamo para as duas meninas que o olhavam com adorao. Lissa o observava com profundo constrangimento:
jamais o imaginara doce e terno como se mostrava.
    Precisava cultivar o dio que sentia por ele, acima de qualquer outra coisa. Joel que pensasse que o casamento seria um sucesso... quanto mais iludido, maior
seria o prazer de destru-lo!
    Ao acordar na manh seguinte, Lissa levou algum tempo para reconhecer os mveis do quarto de hspedes que fora alojada e ainda mais tempo para lembrar-se que
perdera o juzo completamente. Como pudera aceitar a proposta de casamento que Joel lhe fizera na noite anterior?
    Era como se fosse uma maldio. Joel Hargreaves tinha lhe alimentado o dio anos a fio; aqueles olhos frios perseguiram, implacveis, a cada minuto da sua vida,
agora...
    Ainda havia tempo para recuar, estava certa; arranjaria uma desculpa qualquer e voltaria atrs, sem hesitar. Como pudera alimentar um plano to descabido, to
contrrio a todos os seus ideais de vida?
    Lissa recostou-se na cabeceira da cama, pensando que iria avisar Joel de que mudara de idia. Foi nesse momento que a porta se abriu, e o rostinho de Louse
veio lembr-la do verdadeiro motivo que a levara a aceitar proposta. Parecia uma armadilha do destino, Lissa pensou com angstia.
    A menina entrou no quarto seguida por Emma, que segurava a mozinha da irm para firmar-se no cho. O corao de Lissa encheu-se de ternura e ela sentou-se na
beirada da cama para abraar as duas com profunda emoo.
    Desfazer seu compromisso com Joel significaria perde- las para outra mulher, algum que poderia tambm am las, proteg-las ou, talvez, apenas us-las para conseguir
a companhia dele. Ficava com o corao apertado ante a possibilidade de v-las entregues a mos estranhas.
    Amanda costumava dizer que Lissa canalizava seu instinto maternal na direo das meninas, mas que talvez no agisse acertadamente, satisfazendo todos os caprichos
das duas como se fossem suas prprias filhas. Era verdade. s vezes, at se assustava com o amor sem medidas que podia dedicar s sobrinhas.
    No, ela no suportaria as restries que Joel inventaria para impedi-la de estar com Emma e Louise. Tambm no estava disposta a abdicar de um sonho que talvez
jamais se materializasse caso ela se casasse com outro homem.    Aquelas duas cabecinhas douradas valiam mais que todo o ouro do mundo.
    A porta do quarto abriu-se novamente e Lissa, surpresa, deparou-se com Joel entrando com uma bandeja nas mos, que veio depositar ao seu lado. Caf na cama.
Podia esperar tudo, menos uma gentileza como essa.
     - Quem disse que vocs duas poderiam acordar a titia, hein?
    Emma e Loulse o olharam assustadas, mas Lissa correu em socorro delas.
    -No se zangue, Joel. u j estava acordada quando elas chegaram.
    O sorriso lmpido de Louise transformou a falsa expresso endurecida de Joel em um olhar surpreendentemente doce.
    - Tio Joel, voc e Tia Lissa vo ser nossos novos pais?
    Joel olhou para Lissa com uma expresso interrogado, como se tivesse lhe adivinhado os pensamentos. Aquele lhar lhe pedia que no desistisse, que levasse em
conta a segurana daquelas pobres crianas indefesas.
    Ela baixou os olhos, envergonhada. Como sempre, a fazia sentir-se culpada e irresponsvel. De certa forma aceitava o sacrifcio e at sentia-se compensada pela
alegria de suas sobrinhas, mas e ele, o que pretendia obter realmente do casamento?
    - Tarde demais para pensar duas vezes, Lissa.
    Ela virou-se para a bandeja a seu lado. Havia duas xcaras, copos, um bule de ch fumegante, torradas, leite. Um desjejum completo. Lissa ergueu as sobrancelhas
e o encarou. No precisou dizer nada porque Joel tinha compreendido sua surpresa.
    - Hoje  o dia de folga da sra. Johnson.
    Ela sentiu vontade de mand-lo para o inferno, mas lembrou-se a tempo da presena das meflinas. Lutando para imprimir segurana  voz, enfrentou a ironia de
Joel.
    - Impressionante. Tem muita prtica, no ? Costumava servir o caf na cama para todas as suas namoradas?
    O bom humor de Joel transformou-se em ressentimento. O sorriso apagou-se, dando lugar a uma expresso grave.
    - Pensei que havamos combinado esquecer nossas diferenas e comear tudo da estaca zero. No creio que um casal que discute o tempo todo, possa fazer muit pela
educao de duas crianas.
    Lissa sabia que ele estava certo e mordeu o lbio em sinal de desculpa. Maldizia-se por dar tanta chance de Joel chamar-lhe a ateno. Para esconder o mal-estar,
virou- se outra vez para a bandeja e serviu dois copos de suco de laranja, e ofereceu s meninas. Louise agradeceu e Emma balbuciou algumas palavras num dialeto
inteligvel.
    - Sabe, tia Lissa, papai tambm levava caf na cama para minha me. s vzes, ele pedia que a bab nos levasse embora.
    Lissa ficou vermelha e evitou o olhar de Joel que no tardou a manifestar-se:
    - Por que ficou to sem graa, Lissa? Uma mulher com a sua experincia no devia ficar constrangida por um comentrio inocente...
    - Preciso voltar hoje mesmo para Londres, portanto...
- Calou-se diante da ameaa que havia nos olhos dele. Era como se tivesse quinze anos outra vez. Uma espcie de medo a invadia, a mesma sensao que se aproximava
dela sempre que um relacionamento se tornava mais ntimo.
    Joel debruou-se sobre a cama e pegou Louise no colo. Ao levantar a garotinha, uma ponta da camisola fina de Lissa subiu e deixou-lhe as pernas  mostra.
    - Londres? - Ele repetiu, admirando-lhe as coxas bem feitas.
    - Preciso tomar providncias quanto  minha casa; meu trabalho, minhas coisas... - Lissa procurou cobrir- se depressa. - Devo explicaes a Simon, no acha?
    - Eu posso cuidar disso para voc, prefiro que fique aqui mesmo e tome conta das meninas.
    - Escute, Joel, existem certas situaes que no podem ser resolvidas de maneira to leviana. Simon no merece que eu..
    - J lhe disse, Lissa,  melhor que eu mesmo v tratar disso. Sei o quanto deve estar se sentndo mal por deix-lo sem secretria e sem amante da noite para
o dia, mas ele vai superar o trauma, sossegue.
    - Joel, voc no tem o direito de..
    - Lissa, se esse sujeito estivesse mesmo interessado ele no hesitaria em pedi-la em casamento. Ainda mais agora, quando est to angustiada com a morte de seus
parentes e com a situao das garotas, mas parece que ele tirou o corpo fora, no foi?
    Ela abriu a boca para negar com veemncia, mas arrependeu-se antes de falar. No ia dar satisfaes a Joel, ele que pensasse o que quisesse.
    - Acho melhor voc no se encontrar mais com Simon. - Joel continuou. - Acostume-se a pensar que agora est
comprometida comigo.
    - Do que voc tem medo, afinal? - Lissa explodiu. -  Acha que vou desaparecer sem mais nem menos? O interesse em ficar com minhas sobrinhas  meu, lembra-se?
    - s vezes, acho que faz questo de que eu pense o pior de voc, garota. - Sem lhe dar tempo para retrucar,  Joel beijou as duas cabecinhas loiras e foi para
a porta do quarto.
Louise correu atrs e o segurou.
    - No vai beijar tia Lissa? Papai sempre beijava a me antes de ir para o trabalho.
    - Anjinho, o tio no vai trabalhar agora, mas se voc faz questo
     Lissa recuou o mais que pde para evitar que ele a tocasse, mas foi intil. Quando os lbios de Joel pousaram nos seus, ela sentiu as palmas da mo ficarem
suadas. S conseguia pensar que precisava esconder esse imenso pavor de qualquer relao mais ntima. Antes se casarem, ele no podia descobrir o quanto a proximidade
fsica a horrorizava.
Sua conscincia lhe avisava que era preciso que dissesse antes, seria mais honesto, mas ela no queria dar
nenhuma ateno a essa vozinha ntima. A sede de vingana comeava a tomar forma..
    Respirou alivlada assim que ele saiu do quarto. Ema lhe sorriu inocente e aquele sorriso luminoso a encheu de ternura
    - Mame..
Os olhos de Lissa brilharam e duas lgrimas desceram- lhe pelo rosto. Louise olhou para a irm, intrigada.
    - No, Emma, essa no  mame,  tia lissa, mas acho que pode cham-la de mame. Tia lissa, eu tambm posso?
    - Pode o qu?
    - Chamar voc de mame?
    - Oh, querida! Claro que sim!
    Quando fossem para a escola, Emma j no se lembraria dos verdadeiros pais, porm Louise j tinha idade para compreender o que lhe acontecera. Se decidia de
maneira to inocente cham-la de me, iso significva uma irrecusvel prova de amor. Com o tempo, poderiam conversar sobre Amanda e John sem que as lembranas da
tragdia fossem to dolorosas, mas por enquanto a garotinha precisava preencher o vazio que lhe ficara.
    Enquanto as duas brincavam sobre a cama, Lssa aproveitou para tomar banho e vestir-se. Depois as levou para o banheiro e tratou de apront-las para o caf.
Foi buscar roupas limpas para elas e viu que o quarto em que Joel as havia instalado era o mesmo que ele dividira com John na adolescncia. Embora confortvel, seria
mais apropriado para dois rapazes. Ela falaria com Joel mais tarde e tomaria providncias para recuperar os brinquedos e as roupas das crianas.
    Enquanto desciam as escadas, Lissa tentava enumerar os itens que teria de discutir com Joel para tornar a vida das sobrinhas confortvel e feliz. Faria tudo
o que estivesse ao seu alcance, para acabar com a confuso que a perda de suas rotinas, om toda certeza, lhes causavam.
   Ao chegarem perto da porta da cozinha, Louise parou e impediu que Emma entrasse. Lissa voltou-se surpresa
    - Vamos queridas, entrem. No querem tomar um lanche?
    - A sra. lohnson no gosta que a gente entre na cozinha.  A voz da criana estava insegura.
    - Mas querida, esta casa tambm  sua.
    - O tio Joel me disse isso outro dia.
    - Ento minha querida, voc no precisa se preocupar com nada.
    - Ela disse que Emma e eu... - a garota titubeava. - Ela disse que Emma e eu....
    - Fale, por favor. Fale Loulse.
   - Ela disse que Emma e eu parecemos dois animais e...
    Lissa ficou estarrecida com o que tinha acabado de ouvir.
    - E... disse tambm - Louise continuou - que j  hora do tio Joel saber o que vai fazer com a gente. Tia Lissa, ele vai mandar a gente embora? - A menininha
comeou a chorar convulsivamente.
    - Claro que no! Nem pense nisso! Fique tranquila querida.
    Aquilo no poderia ficar assim. Lissa acalmou as sobrinhas. Serviu os lanches para elas e, depois de certificar que estavam bem, foi falar com a sra. Johnson.
A mulher estava procurando alguma coisa no escritorio de JoeI.
    - Sra. Jhonson, preciso muito falar com a senhora.
    - Precisa, ?
    - Sim, por favor - Lissa parecia que ia explodir de raiva.
    - Ento fale. O que est esperando? - O olhar da mulher era frio e o tom de voz agressivo.
    - No estou gostando da maneira como a senhora vem tratando as meninas.
    - E que maneira  essa? Daria para voc me explicar melhor? No estou entendndo!
    - A senhora no tem a mnima pacincia com elas.
    - Ah, no tenho? E por que deveria?
    - Senhora Johnson, eu gostaria... - O dio era tanto que Lissa mal conseguia articular as palavras.
    - Gostaria? Gostaria de qu? Vamos, fale logo! No tenho tempo a perder com conversa fiada. Preciso acabar de fazer meu servio!
    - Em primeiro lugar: no grite comigo! Em segundo
quer queira, quer no, a senhora vai ter que me ovir!
    - A nica pessoa  quem devo qualquer tipo de explicao  ao sr. Hargreaves! A ele e a mais ningum, entendeu, mocinha?
    - A  que a senhora se engana! Muito em breve me tornarei a sra. Hargreaves! Portanto, tudo o que se passa nesta casa tambm me diz respeito, fique bem certa
disso!
    - Mas ainda no se casou, no  mesmo, senhorita... senhorita.. Qual  mesmo o seu nome?  A provocao continuava.
    - Lissa. Meu nome  Lissa, senhora Johnson!
    - Pois bem, senhorita Lissa: no fui contratada para cuidar de crianas, sabia disto?
    Estava sendo muito difcil para Lisa, manter seu auto- controle e no agredir fisicamente aquela mulher insensvel.
    - No, no sabia, mas podia imaginar. Mas como a senhora sabe, essas crianas ficaram rfs de uma hora para outra..
    - Olha aqui, senhorita Lisa - a maneira como a empregada pronunciava as palavras no deixava a menor dvida da enorme ironia que estava por trs - a minha vida
tambm no  nada fcil e..
    - Mas a senhora h de convir comigo que no se pode ir chamando duas crianas de animais, concorda?
    A mulher fez que no escutou as ltimas palavras.
    - Como eu estava dizendo, a minha vida no  fcil e no estou disposta a ficar correndo o dia todo atrs de duas crianas mimadas e mal-educadas!
     - Mas senhora Johnson, a senhora mesma disse que so duas crianas..
    - Sim, so duas crianas, mas com idade suficiente para saberem o devido lugar.
    - Elas acabaram de sofrer um choque muito grande!
    - Isso no  problema meu! -
    - A senhora  uma mulher desumana!
     - Acha mesmo, senhorita.., senhorita? Ah, sim, senhorita Lissa.
    - H muito, h muito tempo mesmo, eu no encontrava uma pessoa to egosta quanto a senhora.
    - No me importo nem um pouco com a sua opinio. A nica coisa que exijo  que as mantenha afastadas mim! E passe muito bem, mocinha - A  mulher saiu pisando
duro do escritrio.
    A conversa deixou Lissa descontrolada. Como uma pessoa que j tinha vivido tudo na vida poderia agir daquela forma. No dava para entender. Precisava tomar providncias
urgentes, a sra. Johnson teria que ser afastada imediatamente. Sabia o quanto as crianas, se ressentiam com a antipatia de quem quer que fosse, naquela fase da
vida. Elas possuam uma espcie de radar infalvel e a rejeio daquela mulher era evidente.
    Lissa voltou  cozinha com os olhos cheios de lgrimas. Suas sobrinhas no mereciam aquele tipo de tratamento.
    - Muito bem, comeram tudo? - Estava difcil controlar a emoo.
    - Ainda no, titia, estou acabando.
    - Voc no quer mais um pouco de leite?
    - Eu no, obrigada. S quero um pedadnho de po com manteiga. Voc quer comer mais alguma coisa, Emma? - Loise precia uma mezinha falando com o seu beb.
A menorzinha sorria com o rosto lambuzado pela gelia. - Acho que ela est querendo laranjada, titia. -
    Como duas crianas to adorveis poderiam ser consideradas mal-educadas? A senhora Jhnson devia estar vivendo lgum problema srio.
    - O tio Joel contratou uma bab para ns, sabia?
    -  mesmo? -Como ela se chama?
    - J.
     - J?
    - , J de Josephine! No  um nome engraado?
    - E onde ela est?
    - Foi embora!
    - Foi embora? U, por qu?
    - Ela disse que tinha um namorado muito ciumento.
    - Namorado. ciumento?
    - . Ela ficou aqui s uns dias.
     Lissa mordeu o lbio inferior, preocupada. No era de se estranhar que o namorado da moa a tivesse proibido de trabalhar naquela casa. Que homem seria seguro
o suficiente para enfrentar tudo o que JoeI representava: sua virilidade, fora, poder, charme e beleza fsica? Pela maneira como a beijara de manh cedo, delicado
e terno, podia imaginar o efeito que suas carcias provocavam nas mulheres que o haviam conhecido e amado.
     Quando acabava de atender as crianas, Joel apareceu na cozinha, como se os pensamentos ousados de Lissa tivessem chamado.
    - Ser que eu tambm mereo um cafezinho?
    Joel sentou-se  mesa, entre as duas crianas, bem a tempo de impedir que Emma derrubasse todo o suco de laranja sobre a mesa. Lissa o observava, enquanto lhe
via o caf; aquele homem dcil e carinhoso que cuidava das crianas com toda a segurana, e para quem elas olhavam com admirao, no podia ser o mesmo de seus pesadelos,
o mesmo homem que desencadeara uma avalanche de censuras, recriminaes e preconceitos sobre sua pobre cabea adolescente, seis anos atrs. Ooutro Joel Hargreaves
era um carrasco que destrura todos os seus snhos, todas as sua esperanas de viver uma vida tranqlla e normal; como qualquer mulher.
    - Tio Joel podemos ir brincar?
    - Mas  daro, vamos l! - Ele pegou  menorzinha com muito carinho e a colocou no cho. - Cuidado! No vo se machucar!
    - Pode deixar titio, eu tomo conta de Emma.
    As duas crianas saram felizes em busca dos sonhos
    Por mais que tentasse evitar, o pensamento de Lissa voltava com maior freqncia, agora que se aproximara de Joel, s cenas do passado que a marcaram para sempre.
Se ele no tivesse entrado no quarto de Gordon naquela. Noite acompanhado de seu pai, ela estava certa de que tudo se resumiria em uma troca inocente de beijos inexperientes,
sensaes exploratrias dignas de duas crianas que sequer sabiam o significado da palavra sexo. Joel a fizera sentir-se como uma prostituta aos catorze anos de
idade! E isto tinha sido muito doloroso. Chegou num ponto que comeou a pensar que estivesse ficando louca. As dvidas eram tantas, os medos to grandes que s mesmo
um bom analista teria podido ajud-la, mas o remdio encontrado para ela fora outro. Nem palavras de conforto, nem amor. S desprezo e aquele maldito colgio.
    No, ela no poderia permitir-se agora trat-lo com benevolncia. No queria v-lo de outra forma que no correspondesse quela imagem que guardara no fundo
da memria e que a perseguia dia aps dia, ano aps ano; a imagem de um monstro desumano e impiedoso que tratara sua ingenuidade de criana, seus primeiros beijos,
com o sarcasmo de um homem vivido.
    Lissa levara muito tempo para entender a atitude de seus pais, mas aprendera a perdo-los, embora jamais tivesse tentado qualquer tipo de reaproximao com eles.
Lembrava-se de t-los ouvido falar, na poca, sobre uma tia que jamais conhecera  e cujo nome dificilmente era pronunciado na famlia. Segundo o que pudera entender,
a moa tinha escolhido um tipo de vida conden.vel e francamente promscuo; vivera em acampamentos de soldados durante a Segunda Grande Guerra e fugira com um tenente,
um homem casado. Desde ento, nunca mais tiveram notcias dela.
    Lissa perdoara a seus pais, contudo no fora capaz de aceitar que a tivessem tratado como uma criatura imoral, leviana e ftil.
    Lembrava-se do colgio interno com enorme nitidez, de sua vergonha ao saber que aquele era o lugar para onde, os pais enviavam as filhas que consideran perdidas,
um mundo agressivo com que jamais se acstumara a lidar. Todas lhe perguntavam o que estava fazendo ali, o que tinha feito para merecer o castigo. Multas se vangloriavam
da vida passada, e diziam, para quem quisesse escutar, que continuariam fazendo as mesmas coisas quando saissem de novo para o mundo. Lissa sentia-se indesejada...
e recolhera-se como um animal ferido, se fechando em seu prprio mundo sombrio. Tudo o que desejava era estar longe do contato com as pessoas.
     - Lissa?
    Os olhos de Joel estavam fixos em seu rosto, no sabia dizer quanto tempo fazia.
    - Sim?
    - Preciso lhe dizer uma coisa..
    - Antes tenho que conversar com voc.
    - Alguma coisa importante?
   - Sim, muito. Hoje discuti com a sra. Johnson.
    - Discutiu? O que foi que aconteceu?
    - Acho que voc no sabe, mas ela no vem muito bem as meninas.
    - Tem certeza, Lissa? No estou entendendo.
    - Pois , a conversa que tive com a sra. Johnson foi sria, e ela se mostrou de uma grosseria sem limites comigo.
    - Mas Lissa, voc tinha que ter falado comigo de imediatol
    - No tive jeito. Gostaria que voc a despedisse.
    -  to grave assim?
   - Muito, Joel. Muito grave.
    Lissa contou a ele tudo o que se passara, a conversa com Louise e a briga no escritorio. Joel lhe prometeu que conversaria com a mulher. Exigiria uma explicao.
    -  Joel voc ia me dizer alguma coisa, lembra-se?
    -  mesmo! Falei com Simon Greaves, ele ja sabe que vamos nos casar.
    Lissa no deu resposta e o encarou surpresa. Por que Joel estaria com aquele ar triunfante estampado no rosto? Para algum que se casava por convenincia, era
estranha e inesperada tamanha demonstrao de alegria.
    - Lissa, falei tambm com o vigrio local. Espero que no tenha pensado em casar-se apenas no civil. Meus avs, meus pais, John e Amanda, todos se casaram na
Igreja, e, se voc no tiver nada a objetar, gostaria de seguir a tradio. Claro que teremos uma cerimnia simples, apenas ns, o padre e duas testemunhas. Disse
ao padre que tnhamos a inteno de anunciar nosso noivado no dia de seu aniversrio, e que resolvemos antecipar os acontecimentos diante da tragdia que levou os
pais de Emma e Louise.
    Isto ela nunca poderia explicar. Como Joel podia ter uma memria to prodigiosa? E desde quando ele sabia o dia do seu aniversrio? No lembrava de t-lo vista
em nenhuma de suas festinhas, quando criana.
    Mas ainda bem que Joel tinha se preocupado em arrumar uma boa desculpa para aquele caminho to rpido. O que menos desejava era servir de alvo para os comentrios
de amigos e vizinhos. Ningum precisava saber de fato por que se casavam.
    - Lissa... s mais uma coisa: espero que leve a srio nossos votos de fidelidade diante do padre. Sabe como , a cidade  pequena e..
    - E temos que manter as aparncias, j sei.
    - Seus erros do passado no podero se repetir; no vou aceit-los como seus pais o fizeram.
    - O qu?
    - Isso mesmo! Uma das coisas que mantenho mais vivas dentro da minha mente so as recordaes daquela noite, a fisionomia tensa de seu pai, as lamurias de sua
me. Estvamos aqui m casa acabando de jantar, quando ele se sentiu mal e meus pais me pediram que os levassem de carro. Ao chegarmos, eles deram por sua falta
e, quando seu pai j estava fora de si, sua me lembrou-se do telefone da amiga com a qual voc havia passado a tarde, e fomos para l. No caminho eles me explicaram
o quanto se preocupavam com seu comportamento arredio, incontrolvel... No comeo no consegui acreditar, eu achava que voc era tmida e retrada, mas quando a
surpreendi naquele quarto, acho que fiquei em estado de choque.
     Lissa estava  beira de uma crise de nervos, desejava gritar-lhe que parasse de falar, explicar-lhe sua verso dos fatos, jurar-lhe que estava enganado, que
ela no passava
de uma criana, que jamais havia bebido um nico gole de lcol... No, ele no podia conhecer a tortura dos seus segredos. Ela no poderia lhe dizer que er apenas
uma mulher pela metade!
    - Quantas vezes antes daquela voc se entregou aos rapazotes  com quem andava?
    Lissa ficou paralisada com a pergunta.
    - No admito que me fale neste tom.
    - Eu no estava querendo ser indelicado
    - Ah no? Est por acaso querendo fazer elogios, ?
    -  Lissa, escute Estou tentando apenas...
    - Isto faz alguma diferena? Se acredita em tudo o que acabou de me dizer, ento por que deseja se casar comigo?
    - Voc sabe o porqu!
    - Eu presumo que na sua cabea...
    - Lissa, pare um pouco! Seja mais racional!
    -Ah... racional...
    --  para o seu prprio bem!
    - E desde quando voc se preocupa com o meu bem estar? - Lissa falava de uma maneira que assustava Joel
    - E voc acha que eu deveria me preocupar?
    - Joel, no seja to hipcrita!
   - Me desculpe, mas eu no estou sendo hipcrita, Lissa. - Ele se mostrava cansado com a discusso.
    - E voc acha que tenho motivos para acreditar na sua sinceridade?
    - Sabe Lissa, acredito que, por mais que fale, no conseguirei convenc-la. Mas entenda uma coisa: sua moral no est em jogo agora.
    Lissa no gostou das ltimas palavras ouvidas. Aproximou-se dele com o dedo em riste:
    - No est agora e nunca esteve antes!
    - Se faz mesmo questo de saber, no me importo nem um pouco com quantos homens se envolveu e nem de que forma.
    - E voc quer mesmo que eu engula esta histria?
    - Sou um homem realista, Lissa. No concordo com essa idia absurda de que as mulheres devem se casar virgens.
    - Ento por que esta conversa toda?  pelo prazer de brigar?
    - Bem, em primeiro lugar no estou brigando com ningum. Em segundo, para mim esta conversa est sendo muito importante.
    - E posso saber o porqu?
    - O que me incomoda em voc  o pouco respeito que parece ter por si mesma..
    - Joel... Voc no acha que est indo longe demais?
    - No, no acho!
    - Com que direito voc me fala, deste jeito?
    -  Com nenhum direito, Lissa. Mas como um dever.
    - Dever? Voc no tem deveres para comigo!
    - Tenho, tenho sim. Afinal vamos nos casar.
    - Ah...  mesmo... Sabe que at j tinha me esquecido? - Ela fazia absoluta questo de mago-lo.
    - Est bem Lissa, como voc quiser, mas...
    - Ainda tem mais alguma coisa, Joel?
    - Sim, tem. - Joel parecia temeroso em continuar falando.
    - Ento diga logo
    - Lissa, desculpe eu insistir, mas voc deveria valorizar o seu corpo, e no trat-lo como algo imprestvel que se pode atirar em qualquer lata de lixo
    - Voc  mesmo petulante, Joel!
    - No, Lissa, eu no estou querendo ser petulante, minha nica inteno  dizer exatamente o que penso de suas atitudes!
    Lissa arregalou os olhos e o encarou com expresso de sarcasmo
    - E o que pretende fazer para guardar as virtudes de suas sobrinhas? Comprar-lhes um cinto de castidade?
    A fisionomia de Joel crispou-se, sua expresso tornou-se indefinivel. Ela o desconcertara. Ele lhe dava pena. Tantos conceitos filosoficos e nenhum jogo de cintura.
Seus padres burgueses eram to frgeis e, ao mesmo tempo to destrutivos. Ele mesmo a acusara de ter sido leviana, de haver magoado seus pais e agora lhe falava
em tempos moderno, igualdade entre sexos... grande piada!
    Joel pensou algum tempo antes de responder-lhe:
    - A vida de Emma e Louise diz respeito s a elas. No podemos interferlr
    - Tem certeza de que  isso que voc pensa, Joel? - A ironia das palavras de Lissa estava fazendo com que Joel perdesse a pacincia.
    - E bvio que tentarei educ-las no sentido de que se
considerem os verdadeiros tesouros que so.
    - Tesouros, Joel?
    - Isso mesmo: tesouros!
    - Voc  mesmo uma piada, sabia?
    - Se existe alguma piada por aqui, tenha certeza de 1ue no sou eu!
    - U... Est perdendo o seu senso de humor?
    - Lissa, voc est indo longe demais com as suas provocaes!
    - Longe demais, eu, Joel?
    - Longe demais, Lissa! Longe demais!
    - Pois  a que voc se engana! No deu para perceber a grande besteira que acabou de falar?
    - No. Eu no creio que tenha dito alguma besteira!
    - Claro que no! Pelo jeito o seu ego  maior do que o mundo.
    - Quer me explicar, por favor, do que  que voc est falando?
    - Pois no. Ento voc acha que as meninas tm que
se preservar como os tesouros que so?
    - Claro, e voc no?
     - Voc no percebe que quando voc diz tesouro, sua inteno  dizer virgindade? Ou estarei enganada?
    - Redondamente enganada, minha cara!
    - Ah, ? No venha com esse papo por cima de mim!
    - Lissa, estou falando de algo que parece que voc nunca sentiu!
    - Olha que maravilha! Estou falando com um especialista em sentimentos alheios!
    - Lissa, acho qe est comeando a apelar.
    -  Estou? Voc  mesmo uma gracinha...
    - No estou aqui para fazer graa!
    - ... realmente no est! Mas continue quem sabe voc consegue!
- Lissa, pelo jeito no vai dar para a gente continuar conversando. Voc no quer me ouvir!
    - Como no quero? Quero e muito! S no admito que voc fique a jogando os seus conceitozinhos morais sem me dar o direito de lhe responder  altura!
    - Me desculpe, mas acho que est acontecendo exatamente o contrrio! Eu  que no estou podendo falar.
    - Ento diga Joel. Diga com todas as palavras o que afirma no estar conseguindo.
    - Pois muito bem! Lissa, quando eu falei em tesouro,estava pensando em amor prprio. E o amor prprio  muito mais importante do que esta liberdade sexual efemera
e intil que temos hoje em dia.
    - Claro! E voc fala por experincia prpria, no?
    - Nunca tive uma mulher a quem no respeitasse e de quem no gostasse.
    Um sorriso sarcastico surgiu nos labios de Lissa
    - timo, ento eu serei a unica exceo.
    Seus olhos estavam embaados e ela poderia chorar a qualquer momento. Precisava fugir dali o quanto antes.
    Ela ainda o ouviu cham-la, mas para seu alivio, o telefone tocou e Joel no pde segui-la.
    Mais de uma hora se passou at que Lissa pudesse descer outra vez, refeita da humilhao que tinha sofrido com as palavras de Joel. A cozinha brilhava de limpeza,
toda a loua havia sido lavad. Ele agora ligava a mquina de fazer caf, enquanto as crianas desenhavam sobre a mesa da copa.
    A voz dele no passava de um sussurro, quando falou, sem tirar os olhos da mquina:
    - Esquea-se do passado, Lissa.
    - Esquecer-me do passado?
    - Sim, por favor
    - Joel, o passado no deve ser esquecido. - A tristeza de Lissa era tanta que mal conseguia olhar para ele.
    - Mas voc precisa esquecer!
    - No Joel, eu, no tenho nada para esquecer.
    - Lissa, eu..
    - Se voc quer mesmo saber, eu nunca pretendi esquecer-me de nada em minha vida.
    - Mas assim voc est se autopunindo.
    -  Isto no  autopunio, muito pelo contrrio...
    - O que  ento?
    - Acredito que gente s consiga crescer, se tornar adulto, quando o passado deixa de nos perturbar.
    - Mesmo assim, creio que voc deveria ser um pouco mais suave, devia se poupar um pouco.
    - Tenha certeza de que me poupo, Joel. No sou uma carrasca comigo mesma.
    - No sei, s vezes, tenho a sensao de que voc...
    - No se esquea de que as sensaes so suas, e elas podem estar distorcidas.
    - Bem, acho melhor pararmos por aqui. No estou a fim de ficar discutindo.
    - Acho uma tima idia.
    - S te peo uma coisa: siga o nosso trato  risca e jamais se envolva com tipos como Simon.
    Lissa o encarou perpiexa. As palavras de Joel a deixaram desconcertada. Por que ser que Simon ainda o preocupava? Ah, se ele pudesse saber como estava enganado,
e pudesse lhe dizer toda a verdade. Seria muito engraado presenciar o embarao dele ante suas revelaes! Com toda certeza, duvidaria, quando soubesse que era fria,
incapaz de trocar uma carcia que fosse, com um homem...
    - E quanto a voc, Joel? Tambm vai cumprir seus votos?
    Lissa percebeu que aquilo era um desafio. Seu olhar desviou-se dos olhos dourados de Joel e ela ficou apreensiva. A proximidade daquele homem mexia com seus
nervos, doa-lhe no fundo da alma. No se sentia  vontade ante o ar de provocao com que ele a encarava.
    - Lissa... por que  to enigmtica?
    - Enigmtica, eu?
    Joel a tocou, acariciou-lhe o rosto. Lissa sabia que a testava e o afastou.
    - No acredito que seja to timida quanto parece. Uma mulher com a sua experincia, no devia ser to arredia...
    - Joel. pare com isso!
    Naquele momento, Louise os interrompeu para mostrar-lhes o desenho que acabara de fazer, e Lissa quase a pegou no colo para agradecer. A menina jamais poderia
imaginar o quanto a sua entrada na cozinha tinha sido oportuna. Ele no devia ouvir as batidas de seu corao assustado, acelerado.
    De repente, JoeI assumiu um ar srio e decidido. '
    - Tenho que sair agora. Marquei uma srie de  entrevistas para preencher o lugar de meu irmo nas indstras.
    Lissa no pde controlar uma sensao de pena. Joel deixara transparecer a mgoa que o compromisso lhe causara. Devia estar sendo difcil para ele, procurar
tantos candidatos, algum que pudesse substituir o prprio irmo.   Lembrava-se de ter ouvido Amanda dizer maravilhas do dinamismo que John empreendera aos negcios
da famlia. Joel era mais dado a investimentos, o irmo sempre lutara como um gigante pelas indstrias. Era fcil imaginar como John faria falta!
    A tarde, logo aps o almoo, Lissa saiu com as crianas. Foram a um parque de diverso. Antes de sair, Louise fez questo de procurar no armrio do seu quarto
um vestidinho verde, cheio de babados. Um dia, sua me lhe dissera que a roupa combinava com os olhos dela. Para Emma, escolheu um conjuntinho de calas compridas
marrons e um casaquinho amarelo.
    - Tia Lissa, assim que a gente chegar l, eu quero ir na roda-gigante. - Ela estava muito entusiasmada.
    - Na roda-gigante, Louise?
     - Eu adoro, titia!  o que mais gosto.
    - Por que voc gosta tanto assim da roda-gigante, querida?
    - Porque l de cima a gente v tudo pequenininho...
    -  mesmo?
    - E parece que o cu fica mais perto!.
    - Que coisa bonita voc acaba de dizer, Louise. - -Lissa se emocionou com a imagem potica da menina. - E depois, para onde vamos?
    - Vamos andar no carrossel, no  Emma? - mma sorriu satisfeita. - Titia, tem um lugar onde eu tambm quero ir, s que tenho medo..
    - Onde, meu amor?
    - No trem-fantasma!
    - No trem-fantasma? E voc tem medo do trem fantasma?
    Louise ficou sem jeito com a resposta e tentou fingir que era gente grande.
    - Sabe, tia Lissa, eu acho que a Emma vai ficar com medo!
     - Emma?
    - . Eu sou muito pequena ainda. No vou conseguir tomar conta dela l dentro.
    - Est bem, Louise, eu vou com vocs no trem fantasma.
    - Vai mesmo?
    - Vou sim! E a eu ajudo voc a tomar conta da Emma, est bem?
    Loulse correu e deu um forte abrao na tia.
    - Muito obrigada, acho que Emma vai adorar o trem fantasma.
    - E se ela chorar?
    - A gente explica que  tudo de mentirinha. - A criana de repente ficou preocupada e perguntou: - No  tudo de mentirinha, titia?
    - Claro meu amor,  tudo de mentirinha.
    No final da tarde, Lissa voltou para casa depois do passeio com as crianas. Os momentos alegres e divertidos que passaram juntas fez com que sentisse que sua
vida no seria apenas um longo e interminvel sacrifcio. Lissa as amava e percebera o quanto podia aprender com observaes simples, ingnuas e desinteressadas.
Nada lhes escapava. O mundo estava ali para ser explorado. Lissa no tinha a menor iluso a respeito da situao em que vivia: Joel a queria porque precisava de
seus servios. Ela gostaria muito de que tudo fosse diferente, mas no era e precisava aprender a se conformar com a idia. J no estava arrependida de ter aceito
aquela proposta que, de incio, lhe parecera absurda.     Sim, ia se casar com Joel e deixaria que o tempo selasse o seu destino.
     O importante, naquele momento, era pensar no bem estar fsico e emocional das crianas, isso sim, era motivo de preocupao. Faria tudo que estivesse ao seu
alcance para que as duas se tornassem seres humanos felizes e saudveis.
     Lissa no pde deixar de se sentir emocionada ao ver Joel entrar no quarto com seu andar calmo e seguro.
    Usava um terno azul-marinho impecvel, de corte e caimento perfeitos. Parecia um astro de cinema que acabara de sair da tela. Com toda certeza, ele devia ser
o prncipe encantado da maioria das moas da regio.
    - Est pronta? - perguntou sorrindo. Segurou-lhe uma das mos e a fez rodopiar.
    O olhar dele admirava, cada parte do corpo de Lissa envolvido por um vestido de seda cor de palha que tornavam seus cabelos ainda mais brilhantes e volumosos.
Ela conseguira disfarar a palidez do rosto com uma maquilagem suave e uma sombra discreta nos olhos.
    Ao olhar-se no espelho mais uma vez, ela no gostou do que viu: um rosto tenso, marcado pelas dvidas e ansiedades de toda uma vida. Mas n estava triste, afinal
aquele era o dia do seu casamento. Aos quinze anos sonhara casar-se de vu e grinalda, fantasiara sua entrada triunfal pela porta de uma igreja coberta de flores.
Naquela poca, no poderia imaginar que usaria um vestido to simples, mas tambm, no poderia ser diferente. Nada sara como planejara nos seus sonhos de adolescente
     - Falta pouco, Joel. Ainda tenho que arrumar as meninas.
     - No se incomode, deixe isso comigo.
    Lissa parou de pentear-se e o encarou, desconcertada.
    - No me olhe assim, realmente posso cuidar para voc. O que houve, Lissa? Est surpresa em descobrir que eu no sou o monstro que imaginava?
    - No exatamente, O que me surpreende  o fato de  um homem solteiro entender tanto de crianas como voc. At parece que tem vrios filhos.
    As palavras de Lissa soaram sarcsticas, e Joel reagira contra elas de forma inesperada. No respondeu de imediato, encarando-a com indignao.
    - No conheo seus conceitos sobre a participao de
um pai na vida dos filhos, mas aprendi muito com John e Amanda. O pai no  apenas aquele que pe comida em casa, sabia? Pretendo cuidar da educao de Emma e Louise
de uma forma ampla, serei bab, pai, amigo, companheiro de diverses, e lhes dedicarei a maior parte de minha prpria vida.
   Lissa sentiu-se envergonhada e desviou o olhar em direo ao espelho, para dar os ltimos retoques da maquiagem. Joel recostou-se no umbral da porta e a olhava
fascinado, enquanto ela deslizava o batom sobre os lbios.
    - No exagere, Lissa, no quero ficar manchado quando tiver que beij-la.
    Ela interrompeu o que fazia e olhou de relance para o rosto de Joel. O que viu na expresso dele a assustou. Para disfarar o constrangimento, voltou a se olhar
no espelho, e comprimiu os lbios com ar natural. O  vermelho se espalhou uniformemente
    - Voc conhece todos os truques para deixar um homem louco, Lissa... Mas est perdendo seu tempo comigo, conheo-a muito bem para me deixar enganar.
    Lissa fechou os olhos como se tivesse levado uma bofetada.
    Quando os abriu outra vez, disposta a dar-lhe uma resposta  altura, ele j no estava mais l. Seu. olhar furioso se voltou para o espelho, e ela assusto-se
com a aparncia de seu rosto. Teria que se manter longe de Joel at a hora da cerimnia, ou sua maquilagem ficaria imprestvel. Ele sabia como provoc-la, mas ela
tambm  sabia que uma grande surpresa o esperava.
     Joel ajudava Emma a descer do carro. Louise j estava esperando toda contente em frente  igreja, ao lado de Lissa.
    - A irm do padre Baptiste se ofereceu para tomar conta das crianas hoje. Disse inclusive que poderiam passar a noite com ela, mas acho que no devemos deix-las
fora de casa por tanto tempo.
    - Joel, estamos longe de ser um casal de noivos comuns, portanto no vejo motivo para isso.
    - Do que est falando?
    O olhar dela mostrou todo o desespero que sentia, mas Joel continuou encarando-a com firmeza. De repente, Lissa teve vontade de desistir de tudo e dizer-lhe
que no podia continuar com a farsa. Queria fugir dali o mais rpido possvel, daquela loucura que estava prestes a cometer... Mas um leve puxo em sua saia chamou-lhe
a ateno. Era Louise, que lhe sorria com os olhinhos inocentes querendo lhe dizer o quanto estava feliz.
    - Depois do casamento, Emma e eu vamos chamar voc de mame e tio Joel de papai. J combinamos tudo, no  mesmo Emma?
    Joel estava com Emma no colo. Os olhos de Lissa correram do rostinho puro da menina para a expresso endurecida do futuro marido. Ele tinha percebido sua aflio
e se mostrava frio, corno se espersse o pior.
    - Tia Lissa, voc no vai viajar para o cu com o tio Joel como mame e papai, no ? Nunca mais vamos  ficar sem nossos papais?
    Lissa abaixou-se para abraar Louise, sentindo lgrimas de emoes escorrerem pelo rosto. No disse nada, apenas segurou a mozinha da garota e a beijou. JoeI
ofereceu-lhe o brao e juntos caminharam em direo ao altar
    Como era de se esperar, a cerimnia foi simples. O tempo todo tentaram se mostrar calmos e decididos. S Deus saberia ver em seus rostos a tenso por que passavam.
    Terminado o casamento, Joel aproximou-se da esposa
para beij-la. Lissa temia que o velho medo voltasse e trouxesse o mal-estar que sempre aparecia quando um homem a beijava. Naquele momento precisava manter as
aparncias. Joel a beijou e ela no pde entender o que
se passava. Sentiu uma emoo repentina invadir todo seu
corpo, quando aqueles lbios ternos tocaram os seus.
    A comemorao foi feita no salo paroquial. Poucos
amigos compareceram. Loulse e Emma estavam radiantes. s vezes, Lissa pensava estar vivendo um sonho. Por que aquilo tinha mesmo acontecido? Pelo jeito acordaria
de repente sozinha em seu quarto de Londres, banhada  de suor. Ela s foi acreditar que tudo era real, ao ver-se no interior do carro de Joel. Estava exausta, aps
representar uma calma que nada tinha a ver com o que lhe passava no ntimo.
    Joel mantinha-se em silncio ao volante do automvel, compenetrado em seus pensamentos misteriosos. Marido e mulher, este era o papel que representariam de agora
em diante, quisessem ou no.
    Lissa tirou as jias que usava antes mesmo de entar na casa. Na sala de estar a sra. Johnson os esperava de malas prontas e nem mesmo aguardou que se sentassem
para anunciar que estava de partida.
    - Sr. Hargreaves, no gostei da conversa que o senhor
teve comigo.
    - Pensou a respeito, como lhe pedi, sra. Johnson'? - Joel sabia que a todo custo precisava manter a calma.
    - Nem prcisei pensar! - explodiu a mulher. - O senhor no cumpriu o nosso trato.
    - Eu lhe expliquei a nossa situao, sra. Johnson.
    - A explicao no me convenceu. E tinha ficado bem claro para o senhor que eu no trabalhava para mulheres. S para homens solteiros.
    - Sra. Johnson...
    - E nada de crianas, lembra-se? O senhor quebrou o trato e eu saio daqui!
    - Passe muito bem, sra. Johnson! - Joel no podia entender como uma pessoa podia se tornar to fria, to indelicada.
    Lissa retirou-se da sala com as crianas, ansiosa por se ver livre de uma situao to desagradvel como aquela. Em seguida, Joel entrou no quarto das meninas,
desanimado.
    - Parece que teremos de procurar uma nova empregada antes do que espervams. Tentei convencer a sra. Johnson a ficar conosco pelo menos at que encontrssemos
uma pessoa adequada, mas ela estava irredutvel;
    - No se preocupe, Joel, no temos pressa. Posso cuidar da casa e das crianas sozinha. Temos todo o tempo do mundo para acharmos algum com as qualificaes
que o cargo exige, Agora tenho que descer para preparar um lanche. Emma j reclamou que est com fome.
    - Bela maneira de comearmos nosso casamento, heim?
    O olhar de Joel mostrava que se  divertia com a situao. Lis alarmava-se, quando ele a olhava daquele jeito, com intimidade; ela o preferia distante e indiferente.
    Naquela noite, eles dividiriam a mesma cama. Lissa estremecia cada vez que se imaginava a ss com ele, entre quatro paredes. Ainda no sabia que tipo de atitude
teria que tomar para mant-lo a distncia.
    Agora via como tinha sido ingnua. Aceitara a proposta de Joel por vingana, queria castig-lo, mas cada vez mais uma certeza aumentava: ele tinha percebido
a trama, inteligente como era, saberia muito bem contornar a situao, fazendo com que ela se arrependesse amargarmente por ter tentado engan-lo.
    Ele no permitiria que Lissa violasse as regras do casamento. Exigiria que cumprisse o compromisso que assumira, ao aceit-lo como marido. Era melhor se preparar
para confessar-lhe a verdade antes que ele ousasse toc-la.
    - Est com frio, Lissa?
    Joel tocou-lhe o brao e ela sentiu o sangue gelar suas veias. Como ele reagiria, quando soubesse que ela seria capaz de corresponder aos carinhos?
    Lembrava-se da primeira vez que se aproximara de um homem depois daquela noite terrvel... Descobrira-se incapaz de responder s carcias de Jim, um rapaz de
olhos bonitos e expressivos que conhecera ao completar vinte anos. Fora uma espcie de choque e Lissa jamais se esquecera do prprio sentimento de repulsa e do olhar
assustado que ele lhe dirigiu. Aquele momento marcara pelo resto da vida. Um sorriso plido suigiu-lhe nos lbios
    - No Joel, no estou com frio. Vou descer para preparar o lanche das meninas. Quer que eu faa alguma coisa para o nosso jantar?
    - No que est pensando? Num jantar romntico,  luz de velas?
    No havia nada de cnico no tom de voz dele, e Lissa sorriu antes que se desse conta de que travavam um dilogo quase de marido e mulher.
    - Jantar  luz de velas? No, Joel, estou muito cansada. Assim que as crianas comerem e tomarem banho vou coloc-las na cama. Em seguida sou eu quem vai dormir.
Hoje o dia foi muito agitado.
    - No, no senhora... voc no me escapa esta note!, A maneira como se mostra embaraada cada vez que insinuo alguma coisa sobre ns me torna mais e mais ansioso
para t-la s para mim. Quero conhecer os segredos de uma mulher experiente!
    Se ele soubesse da verdade, se pudesse ler os pensamentos de Lissa, su decepo seri definitiva. Ela chamou as crianas e fugiu apressada daqueles olhos provocantes,
fixos em seu rosto. Ele a torturava e possivelmente no se dava conta da situao.
    O que faria Joel quando soubesse que no teria mais que um relacionamento platnico com a mulher que desposara? Quanto tempo suportaria um casamento estriI
e sem vida? Ela sentia o estmago revirar. J no poderia viver sem Emma e Louise, seu amor pelas sobrinhas crescera e se tomara mais protetor, mais maternal. Eram
sua principal razo de continuar a viver.
    Enquanto preparava as duas para que dormissem, Joel chegou para lhes dar boa-noite. Ele a observava. Captava cada movimento da esposa com um interesse qe ela
no compreendia.
    - Parece cansada.
    Por um momento, Lissa teve o pensamento louco de apoiar-se em seu ombro forte e descansar. Toda sua vida julgara-se insensvel a qualquer tipo de atrativo masculino.
No entanto, Joel a surpreendera com seu jeito carinhoso, com seus modos gentis. Aos poucos derrubara todas as convices que Lissa tinha a respeito de seu carter.
Aquele no era o homem que aprendera a odiar
    - Um pouco, minha cabea est estourando - respondeu finalmente.
    - Venha, vamos jantar. Voc deve estar com fome.
     Lissa tinha medo de comear a gritar. O nervosismo que sentia era imenso. A farsa continuaria e ela sabia que no ia agentar por muito tempo.
    - Joel... o que voc quer comer?
    - Eu lhe preparei uma surpresa. V trocar de roupa e desa em seguida. Estarei esperando.
    Quando Lissa viu a mesa posta na sala de de jantar, o prato de carne fumegante, tudo arrumado com requinte e bom gosto, sua expresso demonstrou um misto de
espanto e gratido.
    Com que foras diria a Joel que jamais seria mulher dele? Com que foras diria que as expectativas que criara nunca se concretizariam? Ela devia estar ficando
louca. Joel ra um monstro, um egosta!
    Aquele Joel aquele homem terno e dedicado era uma fantasia, um produto da imaginao. Provavelmente, seu prrio inconsciente a impedia de enxerg-lo direito,
como um mecanismo de defesa.
    E se ele quisesse um filho? O pensamento a deixou mais apavorada. Um filhol Uma criana linda, com olhos dourados como do pai
    Lissa estremeceu. Que tipo de milagre ou feitio
operara em seu crebro, para que ela lhe enxergasse apenas qualidades, em vez de continuar a odi-lo com a fora
indestrutvel que a movera todos aqueles anos?... Como
era possvel que encarasse a idia de ter um filho com um homem que lhe roubara as chances de amar e ser amada.
    - Lissa, voc est bem?
    Joel a chamava de volta  realidade Ela se perguntava se o que nos olhos dele poderia ser verdade. Havia slnceridade na maneira meiga e gentil com que se preocupava
com ela? Ou ele seria um grande ator, sabendo exatamente o prximo gesto para impressionar uma platia to frgil?
  - Por que fica vermelha, quando estou olhando para voc? Ningum lhe disse o quanto  atraente?
    - Joel, para ser sincera, eu no me vejo assim. Quando criana, sempre fui alta demais para a minha idade. Mesmo na adolescncia... No fao muito o gnero bonequinha
de luxo.
    - Por isso envolveu-se com todos os homens que encontrou em seu caminho?
    Desta vez ele no a acusava, no havia nenhum resqucio de censura, e Lissa seguiu o impulso de desabafar-se, soltar as amarras.
    - Meus pais preferiam Amanda, valorizavam a beIeza dela, suas virtudes morais. Fiquei cansada de tanto ouvi- los elogiar o comportamento sempre meigo e dcil
de minha irm.
    - Desse assunto, entendo muito bem. Passei toda a minha infncia, tentando atrair a ateno de meus pais. John era o modelo da perfeio absoluta, sempre foi
o favorito de meu pai.
    Uma atmosfera de compreenso, companheirismo e tranqilidade instalou-se entre eles. Joel suspirou e segurou a mo de Lissa com carinho.
   - Precisamos tomar cuidado para que nenhum tipo de complexo desse gnero se crie na cabea das meninas. Tivemos nossa prpria experincia frustrada. Nem elas,
nem os filhos que a gente possa ter, devem sentir qualquer preferncia de nossa parte. Nunca vamos compar-los, concorda?
    Um filho. Joel pensava em ter filhos, exatamente como
ela imaginava. A expresso do rosto dela traduzia o pnico, o tumulto interior por que passava.
    - O que foi Lissa, no gostou do que eu disse? Preferia ter filhos de Simon? -
    Pronto! L estava de novo, bem evidente,o outro lado de Joel. O lado prepotente, arrogante, que tanto a deixava insegura.
    - J chega, vou tirar a mesa e lavar a loua. Preciso terminar com isto, logo. - Lissa fez meno de levantar-se, porm Joel a impediu. Ela olhou para a mo
que segurava seu brao com fora e estava a ponto de explodir.
    - Deixe disso, vamos, suba e tome um banho para relaxar. Eu tiro a mesa e cuido da loua, estou acostumado. Passei dois anos no exercito e fiz um pouco de tudo.
    A fisionomia de Lissa desanuviou-se. Sempre considerara Joel como uma espcie de menino mimado que precisava se esforar para realizar o que quisesse. Agora
ele dizia que havia servido no exrcito, como qualquer filho de famlia de classe mdia. Era espantoso como sabia pouco a respeito dele..
    - Tambm fui rebelde, Lissa, queria conhecer um pouco mais do mundo antes de assumir os negcios de papai. Tive que vencer muitas barreiras para conseguir o
queria. O exrcito foi uma escola para mim.
    A conversa voltava ao clima de antes, ntima, amistosa. Lissa odiava-se por simpatizar com aquele Joel que jamais conhecera, com a essncia do homem que amaldioara
pr tanto tempo.
    - No quer tomar um caf antes de subir?
    - Ah, no, obrigada. Vou subir e dar uma espiada nas crianas antes de me deitar.
    - Lissa... - Ela se voltou, esperando que Joel continuasse.- S quero lembr-la de que vai dormir em meu quarto essa noite. Desculpe, meu quarto no, de hoje
diante  nosso quarto.
    Lissa subiu as escadas com os ombros cados e o corao apertado. Teria sido mais honesto contar toda a verdade a Joel antes de assumir um compromisso to srio.
Poderia dizer-lhe ali mesmo, naquele instante, mas seus desejos de vingana caam por terra,  medida que conhecia o verdadeiro Joel. Se fechasse os olhos pdia
imaginar a fisionomia dele quando descobrisse que tinha sido enganado.
    Louise e Emma dormiam serenas, no quarto ilminado por uma luz bem fraca.
    - Pobrezinhas!
    Lissa as olhou com ternura. Seu corao ficou compadecido ao v-las indefesas, entregues. Estariam sonhando? Quais seriam os verdadeiros sentimentos daqueles
dois coraes inocentes que passavam na mais tenra idade por provaes to cruis? Da noite para o dia haviam sido transportadas para uma vida nova. Agora dormiam
num quarto estranho, ao qual, com toda certeza ainda no estavam acostumadas. Ainda assim no reclamavam. Ainda assim conseguiam espalhar sorrisos luminsos por todo
o canto.
    Depois de um demorado e repousante banho morno, Lissa vestiu-se e voltou ao quarto. Joel havia despido a camisa. Era um homem atraente, de msculos firmes, e
um tom de pele quase moreno. No admirava qe tantas mulheres sucumbissem ao seu charme irresistvel.
    Seus pensamentos a surpreendiarn e assustavam. Ela no se lembrava de algum dia ter olhado para um homem, como o fazia naquele momento.
    Seus nervos  flor da pele a impediam de enxergar um caminho feliz, uma sada qualquer. Lissa precisava encontrar uma desculpa para despist-lo, seu corao
batia acelerado, incontrolvel, o pnico tomava conta do seu corpo inteiro.
    Joel aproximou-se, aumentando o nervosismo de Lissa. Ela arregalou os olhos, lutando para no gritar, para no fugir dali e provocar um tumulto desnecessrio.
    - Nervosa?
    Tudo o que Lissa conseguiu dar como resposta foi um aceno afirmativo com a cabea. Era impossvel articular uma nica palavra, sem tropear no medo que a invadia
    - Tambm estou nervoso, SOu um ser humano como  voc, lembra-se?
    O olhar de Lissa fixou um ponto da parede. Joel estalou os dedos para traz-la de volta.
   - Lissa, sei que s se casou comigo por causa de nossas doces meninas, no tenho nenhuma outra iluso quanto a isso. No entanto, nada nos impede de levarmos uma
vida normal, saudvel, de nos darmos chance de sermos felizes como qualquer outro casal, de termos nossos prprios filhos..
    - No nos amamos..
    Joel virou-se de costas e afastou-se um pouco. Lissa suspirou aliviada.., adiara o destino por alguns segundos
    - Pelo que sei, voc nunca se importou com esse detalhe, cada vez que se envolveu com um homem...
    Ela enterrou as unhas nas palmas das mos. Talvez aquele fosse o momento certo de atirar-lhe a verdade na cara. A raiva tinha voltado com tanta fora que a aterrorizava.
Chegara sua vez de conden-lo, mostrar-lhe o quanto o odiava pelo mal que lhe havia casado.
    - Cus, esqueci-me de uma coisa muito importante! - Joel saiu do quarto sem lhe dar tempo de explodir, as palavras ficaram presas na garganta e a sufocavam.
    Ela foi ao banheiro e ps as mos em concha sob a tornera de gua fria. Lavou o rosto para amenizar o calor que lhe subia pelo corpo.
    Quando ouviu os passos de Joel no corredor, Lissa enfiou-se sob os ienis, s pressas. Cada msculo de seu corpo estava tenso e um suor frio descia-lhe pelo
pescoo.
    Ele abriu a porta do quarto com um sorriso quase infantil, trazendo uma bandeja com champanhe e um balde gelo. Era mals do que evidente que Joel se esforava
para dar ao seu casamento um aspecto normal, e Lissa no pde deixar de sentir-se ainda mais culpada por seus desejos de vingana.
    Ela no poderia nunca se esquecer de que ele era um homem abominvel, que sempre agia por interesse prprio que s se casara com ela por precisar de uma bab
para as crianas.
    A rolha do champanhe estourou e uma verdadeira cascata caiu sobre Joel. Ele tentava encher os copos com as mos trmulas. Lissa baixou os olhos. No queria mais
ver aquela cena, no podia emocionar-se, proibia-se de v-lo com bons olhos.
    -  sade da senhora Hargreaves!
    Lissa abriu os olhos a tempo de ver que ele se aproximava. Joel sentou-se ao seu lado na cama, e a encarou com ternura, desejo, ansiedade.
    - Lissa,  esquea-se do passado... Vamos comear a partir de hoje, d-nos uma chance.
    Ah, se ao menos pudesse ser verdade, se ela fosse capaz de am-lo, de faz-lo feliz, de fazer-se feliz. Cus, o que estaria acontecendo com sua cabea, como
ousava pensar daquele jeito? Na sua frente estava o homem que destrura sua vida!
    Lissa bebeu champanhe como se aquela atitude fosse sua nica salvao. Quando Joel se levantou, Lissa teve a sensao de que as paredes rodavam. Ao v-lo despir-se,
sentiu-se outra vez com quinze anos. O pnico a percorreu, gritos desesperados a ensurdeciam, vindos da memfla O rosto congestionado do pai bailou ante seus olhos,
a expresso fria e desaprovadora da me comeou a se configurar, e eia tapou os ouvidos com as mos.
    - Lissa?
    No, no queria ouvir mais nada, precisava sumir dali para sempre!
    - Lissa.., oua!
    Joel voltou a sentar-se a seu lado. No parecia entender a confuso em que ela havia mergulhado.
    - Est ouvindo?
    Lissa se recomps com rapidez e aguou os ouvidos. No tinha sido imaginao, os gritos eram reais! Uma das crianas tinha acordado e gritava sem parar. Era
como se algum a atacasse...
    O relgio marcava quinze para as quatro. Joel e Lissa entreolharam-se apreensivos, depois da tormentosa madrugada insone. Louise adormecera afinal, cansada de
lutar contra o sono. Sua fisionomia continuava contrada, pelo medo, apesar de todas as promessas de que no a deixariam sozinha.
    - V descansar um pouco, eu fico com ela.
    - Mas, Joel...
    - Pode ir, acho que ela se acalmou. - Ele acariciou com ternura os cabelos da esposa, notando-lhe a palidez.
    Lissa levantou-se devagar para no despertar a menina. Apesar da confuso, Emma continuava a dormir. Antes de
sair, ela deslizou os dedos pela cabecinha loira, com o corao transbordando de amor e compaixo.
    Uma sensao de vazio tomou-lhe conta do peito. Lissa correu os olhos pelos mveis claros, o grande espelho sobre a cmoda, as cortinas leves em azul suave.
Tudo era novidade, mas o seu corao confuso no conseguia se alegrar. Horas antes tinha desejado com ansiedade que o telefone tocasse, algum batesse  porta e
JoeI fosse obrigado a deix-la a ss, mas agora...
    Passava das sete horas da manh, quando ela abriu os olhos. Ao seu lado, Joel tocava-lhe o ombro, com o rosto cansado e olheiras profundas.
    - Desculpe, preciso que tome o meu lugar junto a Louise. No creio que ela volte a ter pesadelos, mas seria bom
que acordasse com um de ns dois a seu Iado, e eu preciso estar no escritrio s nove.
    - Ela costuma ter pesacielos, Joel?
    - s vezes, mas nnca de forma to violenta.
    Lissa esperou que ele fechasse a porta do banheiro para afastar os lenis e levantar-se. A camisola trnsparente delineava seu corpo e ela correu at a poltrona
em busca do robe. Antes que pudesse alcan-lo, no entanto, Joel a surpreendeu. Os olhos dele a percorreram de alto a baixo, enquanto um sorriso quase infantil brincava
em seus lbios           - J de p, sra. Hargreaves? Bela noite de npcias tivemos, hein?
    Ela ainda procurava uma resposta, quando Joel a enlaou pela cintura. Seus lbios uniram-se num beijo tpido, delicado, que mexia com as emoes de Lissa, de
maneira nova e diferente. Ela podia sentir o corao do marido bater agitado contra seu prprio corpo e, quando ele a libertou, estava trmula e ofegante.
    - O que foi, Lissa? Surpresa por saber que a desejo?
    - Sim, estou surpresa. Sempre pensei que me reprovasse como mulher..
    - Como mulher? Est enganada. Oua, Lissa, no estamos juntos por amor, mas a verdade  que estamos casados e isto  um fato. Quero que saiba que nem por um
segundo passou pela minha cabea a idia de um casamento sem sexo.
    Ele tinha se transformado de novo, de um momento para o outro, sem explicao. A voz tornara-se spera e sua fisionomia endurecera. Lissa encarou-o, assustada.
Estava confusa, no podia prever as reaes de Joel. Se ao menos ela pudesse corresponder s suas expectativas amorosas..
    Este pensamento sbito a perturbou. Lissa atropelava-se com as prprias emoes. Contra a vontade, vergava-se  lembrana do que Joel tinha mostrado em pequenas
doses durante a madrugada. Ela havia sentido inveja de Louise, a quem ele cobrira de atenes e carcias, como se fosse o verdadeiro pai, o protetor e amigo.
    A irritao que Joel demonstrava naquele momento a
desnorteou. Lissa o deixou ali parado, no meio do quarto, e saiu sem comentrios.
    Louise dormia abraada ao travesseiro, enquanto Emma mexia-se na cama com os olhinhos abertos. O sorriso dela era luminoso e balbuciou em voz baixa seu dialeto
inocente, como se adivinhasse a confuso da noite, e fosse capaz de entender e respeitar o sono da irm.
    Lissa a tomou no colo e beijou-lhe as faces rosadas, antes de lev-la dali, agradecia a Deus por no ter uma bab, ou uma empregada. O trabalho domstico a manteria
ocupada o bastante para desvi-la das tenses por que passava.
    Quando Louise despertou pouco antes do meio-dia, Lissa j havia limpado todo o segundo andar da casa. O telefone tocou na hora em que preparava o almoo. Lissa
estremeceu, ao ouvir a voz de Joel, longe, cansada, vacilante. Ele se desculpava por no poder chegar cedo
 noite, a tempo de ajud-la a cuidar das meninas. Talvez s pudesse regressar no dia seguinte, pela manh.
    Lissa no entendia a decepo que a roa por dentro, tentava disfarar a angstia com subterfgios. Uma vozinha ntima lhe dizia ser loucura agitar-se tanto
em torno dos afazres domsticos e das crianas, depois de uma noite exaustiva como a que passara, mas no queria admitir que sentia falta da proteo e do conforto
que a presena daquele novo Joel recm-descoberto lhe trazia. Precisava procurar mil atividades e passatempos para no ceder ao impulso de pensar naqueles olhos
que a acariciavam naquela voz macia e doce. A mesma voz que fazia com que todos os preconceitos que criara em torno dele durante tantos anos, cassem por terra.
    Ao percorrer cada cmodo da casa, Lissa os decorava em pensamento a seu modo. Tentava memorizar cada detalhe, para que mais tarde pudesse conversar com Joel.
    A agncia de empregos tinha prometido alguma candidatas para o dia seguinte. Isto lhe garantiria mais um dia cheio, um modo prtico de esquecer-se de seus medos
e angstias Preparava o seu futuro... Estranha ironia. Que espcie de futuro a esperaria depois que mostrasse a Joel a verdadeira mulher com quem ele se casara?
O que  aconteceria depois que lhe dissesse que jamais encontraria nela qualquer resposta a seus impulsos romnticos, s suas expectativas naturais de amor e sexo?
    Agora que j no pensava em revanche, que no o via mais como inimigo, onde encontrria foras para lhe desnudar seus segredos?
    Aos poucos compreendia que Joel havia tomado o lugar de seus pais em suas recordaes infelizes A eles Lissa concedera um perdo silencioso, culpando Joel pela
tragdia da adolescncia. Quando passara por aquele momento horrvel na festa, o medo da rejeio invadira-lhe todos os sentidos. A esperana de amar e ser amada
havia desaparecido como se ele a tivesse roubado
    Sim, tinha sido muito mais facil odiar Joel do que os pais... Tinha sido a maneira que encontrara para fugir ao complexo de culpa que sentiria se dirigisse seu
dio  prprj famlia. Era muito jovem na ocasio, para compreender que o ser humano sempre odeia aqueles que o machucam. Sejam eles quem forem
    Lissa movia-se como um autmato pela casa. Os gestos calmos mostravam uma total desarmonia com as recordaes torturantes
    Depoiss de cuidar das meninas e lev-las ao quarto para que dormissem , desceu at a sala de estar e esperou. A casa sem Joel parecia um tnel escuro, sem fim.
Era cedo para se recolher, e nada em volta  interessava o bastante para preencher-lhe o tempo e distra-la, at que o sono chegasse.
    Lembrava-se das noites que passara sozinha em seu
apartamento de Londres. O silncio jamais tomara forma to desesperadora.
    Sentia-se presa na armadilha que Joel lhe preparara. Tinha mergulhado de cabea em um casamento repentino, sem pensar nas conseqncias, sem avaliar as prprias
condies d sobrevivncia. Dvidas, medos, arrependimento e tristeza... Todos os seus caminhos estavam agora tomados pela incerteza. Caminhos que no ousava percorrer.
Como dizer a verdade a Joel? Como fad-lo a uma vida sem amor, cortada pela metade? Como o marido reagiria, ao saber que eia o aceitara apenas para vingar-se do
passado?Talvez Joel nem se desse conta da dor que lhe havia causado.
    Lissa encolheu-se no sof da sala e cerrou os olhos pertubada. Seu pensamento procurava sadas, buscava respostas absurdas para suas infinitas perguntas e no
as
encontrava. Adormeceu ali mesmo. Foi a nica maneira que
encontrou para fugir daquela situao desgastante.
    Acordou com um ruido seco de porta batendo: Lissa esfregou os olhos a tempo de ver Joel sorrir ligeiramente.
    - Acordei voc?
    - Joel? No disse que s voltaria amanh? - Lissa tentava arrumar os cabelos.
    - Mudei de idia. Acho que no quis perder mais uma noite a seu lado. - Com delicadeza, ele comeou a acariciar-lhe as pernas que ainda estavam dormentes pela
posio em que ela havia ficado por tanto tempo.
 Aos poucos as mos dele subiam pelos bro e alcanavam-lhe o pescoo. Ela sentia-se incapaz de se mexer. No compreendia porque deixava que ele continuasse. No
Conseguia impedi-lo.
    - Joel... que horas so?
    - Passa da meia-noite. Voc est bem?
    Aquela voz suave e terna.... Que novo truque Joel usava para persuadi-Ia? O que esperava conseguir com aquele olhar apaixonado que lhe queimava as faces?
    - Tudo bem, eu... apenas peguei no sono enquanto relaxava um pouco... Acho que vou subir agora mesmo.
    Joel a abraou antes que se levantasse, e ela baixou os olhos, perturbada.
    - Alguma coisa errada, Lissa? Arrependeu-se de  deixar Simon para se casar comigo? No acha que agora  tarde demais?
   - No  nada disso! - Ela levantou-se de um salto. O medo e a excitao misturavam-se em seu sangue, e cada msculo de seu corpo estava tenso. Lissa sentia-se
prestes a desfalecer; os olhos de Joela despertar-lhe emoes inimaginveis para algum que cerrara as portas do amor.
    - Por que me evita, ento? Sei que criamos vrios obstculos entre ns, ao longo destes anos. Mas pensei
que tivessemos concordado em derrubar as barreiras quando decidimos nos casar
    O rosto de Lissa perdia a cor, era chegada a hora de revelar seu segredo. Joel a encarava com firmeza, exigia-lhe uma explicaco para o comportamento esquivo.
No haveria mais desculpas ou estratagemas que o convecessem a adiar o confronto.
    - Lissa, pelo amor de Deus, diga-me o que est havendo. Sei que h algo errado com voc
    - Por que se casou comigo, Joel? Se voc mesmo confessa que existiam obstculos entre nos! O que o faz pensar que o simples fato de assinarmos um papel transformaria
averso em amor?
    Joel franziu a testa, confuso.
    - Por que todas essas perguntas agora? Oua, tudo que desejo  que se predisponha a ser feliz comigo, para  que possamos ter um lar normal, igual a milhares
de outros. Ns dois sabemos porque nos casamos e o que me intriga  a repulsa que demonstra sentir, o modo como evita que eu a toque. Por que nega ao seu marido
o que desperdiou com todos os outros homens que teve?
    O olhar indignado de Lissa o fez parar. Ela s pensava em sair daquela sala. Queria refugiar-se em algum canto da casa onde ele no pudesse mais criv-la de
acusaes insuportveis como a que tinha acabado de fazer.
    Todos os bons sentimentos que havia deixado florescer em torno de Joel caam por terra, arruinados. Ele voltava a ter o mesmo rosto do passado, os mesmos olhos
que a aterrorizaram em pesadelos e que julgava esquecidos.
    - Sai da minha frente, Joel!
    - Lissa, por favor... - o tremor na voz de Lissa tinha assustado Joel. No sabia o que fazer diante daquela situao.
    - No! No quero ouvir mais nada - os olhos dela faiscaram de raiva e ressentimento. Todos os anos de amargura que vivera voltaram de uma s vez. Joel no pde
mais det-la.
    Quando Lissa deixou a sala, ele afundou o rosto entre as mos, desanimado, impotente. Nunca a solido fora to grande.
   No silncio do quarto mal iluminado pela luz que vinha da janela, Lissa esperou que a dor passasse. Suas lembranas confundiam-se com as imagens do presente e
a atordoavam    Outr vez estavam abertas as feridas do seu corao.
    A principio, as lgrimas desceram devagar pelo rosto, em seguida transformaram-se em um pranto convulsivo, doloroso, insuportvel. No podia controlar os tremores
do corpo, e sua cabea era um turbilho de lembranas terrveis. Gritos se repetiam cada vez mais altos. Levou as mos aos ouvidos, como se pudesse deixar de escut-los
num passe de mgica.
    Ela no ouviu os passos que se aproximavam no corredor, nem mesmo o barulho da porta que se abria para dar passagem a Joel que a procurava no escuro. Ele tinha
ouvido os soluos da sala.
    - Beba istot - Ele estava ali, bem diante dos olhos dela e oferecia-lhe uma xcara de ch.
    Liss hesitou por um instante e afinal cedeu. Precisava de conforto e no importava de quem viesse. Joel se sentou sobre o tapete e esperou que as mos dela
parassem de tremer.
    - Agora, conte-me o que est acontecendo e no tente
me enganar. J vivi o bastante para reconhecer o pnico
no olhar das pessoas e quero saber o que foi que o provocou em voc.
    Lissa pressentiu que no dava mais para recuar. De repente sentiu-se leve, numa tranqilidade nunca vivida antes. A comdia estava chegando ao fim.
    - No posso ser sua, Joel. Nem de ningum... Os olhos de Joel estreitaram-se o seu silncio foi pior do que qualquer interrogatrio.
    - Eu... no sou uma mulher normal, Joel. Jamais tive a experinca que me atribui. Nunca dormi na mesma cama com um homem em toda minha vida. Eu, Lissa Hargreaves,
sou a mais frgida de todas as mulheres. Naquela noite...
    Estarrecido Joel a ouviu contar o episdio que a marcara de forma to contundente. Em certos momento chegou a duvidar de que a situao que vivia fosse real,
que Lissa estivesse mesmo ali na sua frente e dissesse a verdade.
    - Joel, sei que todas as circunstncias me condenavam, mas voc e papai estavam enganados. Garret e eu no passvamos de duas crianas em busca de emoes desconhecidas.
Estvamos to assustados e temerosos um com o outro que no teramos ido muito longe,  mesmo sem a interferncia brusca que sofremos.
    - Meu Deus! Jamais pensei que... Seu pai me convenceu a acompanh-lo, s pensei em defend-la do pior. Do jeito como ele me descreveu sua turma de amigos, pensei
que fssemos enfrentar problemas srios.
    - Posso imaginar o que voc pensou.
    De repente ele a segurou pelos braos e a forou a olh-lo.
    - Lissa... se naquela poca era inocente de tudo o que eles diziam a seu respeito, se todo aquele tumulto fez com que voc se tornasse frgida... Quer dizer
ento que ainda  virgem?
    Lissa concordou em silncio e de novo as lgrimas correram-lhe pelo rosto.
    - Deixe-me analisar o resto da histria: sempre que esteve prestes a amar algum, a memria de seu pai e das terrveis acusaes que lhe fez naquela noite a
perturbavam,  isso?
    - No! - A hora tinha chegado. No poderia mais recuar.
    - Ento o qu?.
    Lissa o fitava com rosto revelando todo o sofrimento por que passava, ao recordar-se de suas torturas. Agora que ele era dono de seus segredos mais intimos,
precisava ir at o fim.
    - Era o seu rosto que me aparecia cada vez que um homem se aproximava de mim. Foi o seu olhar Impiacvel que me fez fugir do amor durante todo esse tempo. Seu
olhar, Joel. Ele ficou marcado em minha memria de um jeito to forte que jamais pude esquec-lo.
    Agora ele estava ainda mais plido do que Lissa, com os ombros cados e os olhos tambm marejados. Mas aos poucos a fisionomia foi se transformando, tornando-se
dura. Era muito dificil acreditar na verdade.
    - Eu no devia ter lhe contado essa parte de minha histria, no , Joel? - A voz de Lissa soou quase inaudvel.
    - Foi por isso que consentiu em casar-se comigol Queria me castigar, no  verdade?
    Tomada de surpresa, Lissa vacilou arrtes de responder
    - No incio foi o que tambm pensei. Todas as atitudes que tomou, o modo como provocava minha raiva, ameaando roubar-me as meninas... Tudo isso me fez acreditar
que era o que voc merecia, mas depois que percebi o quanto estava sendo infantil, comecei pensar que voc no era o homem horrvel que destrura minha vida. Eu
poderia estar enganada.
    - No tive culpa, no posso ser condenado por um erro que no cometi. Lissa, julguei que agia para o seu bem e nem por um momento duvidei das opinies de seu
pai sobre sua rebeldia, seu temperamento vulgar. Nunca pensei que ele pudesse estar errado.
    O olhar magoado que Lissa lhe dirigiu fez com que hesitasse. Joel acreditara em algum que mal conhecia e destrura as iluses de uma pobre menina de apenas
quinze anos, e agora queria livrar-se da culpa.
    - Eu sei... Sei que a julguei sem conhec-la direito, mas no tinha a menor idia do quanto fui intransigente e maldoso... Lissa, vai pedir a anulao do casamento?
    Que estranha ironia... O destino colocava a seus ps o homem que jogara  por terra todas as suas fantasias de menina. Seria mesmo verdade que ele estava ali;
diante de seus olhos, e que ansiava por uma resposta. Seria real a sensao de que ele temia ser rejeitado.
    - Joel, no posso mais conceber a vida sem Emma e  Louise agora que as tenho junto de mim...
    - Est me propondo um casamento formal?
    - Elas precisam de ns, concordamos concordamos com isso,  lembra-se?
    - Quer dizer que no posso toc-la? Nem ao menos tentar?
   Lissa assentiu com o olhar. Joel encolheu os ombros impotente perante aquela situao.
    - Acho que lhe devo isso. No tenho argumentos para negar-lhe este favor. Certo, aceito o trato, mas peo que concorde em que continuemos a dividir este quarto.
Para o bem das meninas, Lissa.
    - Se prometer qe no vai mais tentar... - Lissa ainda no podia confiar no homem que a destrura.
    Naquele instante Joel era a exata expresso do sofrimento humano. E a ansiedade com que Lissa aguardava sua promessa o magoava at o fundo do ser.
   - Tivemos um dia cheio Lissa,  melhor descansarmos agora. Vamos nos deitar e amanh conversaremos melhor.
    - Mas, Joel... - Ela precisava daquela resposta.
    - Est bem, prometo tudo o que quiser, mas agora venha. Por favor, venha.
    Ele a conduziu at a cama como se cuidasse de uma criana. Lissa teve que se conter para no aninhar-se naqueles braos e confiar-se  proteo do homem que
um dia fora o seu carrasco.
   Agora que tinha se libertado do segredo que a afligia,  Lissa sentia-se bem melhor Podia olhar para Joel sem o escudo com que se protegia de todos. Pela primeira
vez na vida o seu corao se encontrava em paz. Quem os observasse de longe poderia jurar que aquela era uma famlia unida e feliz.   Louise e Emma tomavam seu caf
risonhas e Joel despedia-se das duas com beijos carinhosos. Lissa os olhava com ternura, tinha certeza de que Joel as amava como se fossem suas filhas.
    - No vai beijar mame? - Loulse nunca desistiria de aproxim-los e agora parecia captar alguma no ar.
    Ele virou-se com um olhar maroto e bateu a palma da mo sobre a testa. Em seguida deu a volta na mesa e tocou de leve os lbios de Lissa.
    Por um breve momento os olhos dos dois se encontraram e  Lissa se deixou levar pela doura que descobriu naquela pausa.
    Quando Joel s afastou, ela desejou pedir-lhe que ficasse, que no fosse ao escritrio naquela manh, que lhes fizesse companhia. No entanto, tudo o que conseguiu
foi  balbuciar algumas poucas palavras formais de despedida.
    Joel... algo lhe dizia que ele ainda a faria sofrer, mas tambm ouvia, de uma vozinha l dentro, que seriam
mais que bons amigos.
    Lissa levantou-se para tirar a mesa do caf, assustada com seus prprios pressgios. Tinha que afugentar aquelas idias supersticiosas da cabea. Joel era um
homem atraente, forte e envolvente, mas era preciso que ela no esquecesse de que era capaz de ser perverso e implacvel. No momento, ainda deveria se encontrar
sob o impacto das revelaes e esse era o motivo de se mostrar to compreensivo, mas o que aconteceria, quando as meninas crescessem e se tornassem independentes?
O que conteceria quando ele j no se deixasse impressionar pelo sentimento de culpa? Todas essas dvidas martirizavam os dias de Lissa.
    Ele no era um santo e nem tinha vocao para monge. A reputao de Dom Juan no era apenas  fruto de sua maginao, era real. Joel por certo encontraria algum
que compensaria tantas noites sem amor ao lado da esposa. Afinal, ela no passava de uma esttua de gelo.
    Este era o  caminho natural e Lissa sabia que teria que aceit-lo. Ento, por que aquela dorzinha aguda no peito no a deixava em paz? Por que o medo de perd-lo?
    Os jrdins da casa convidavam a um passeio. Lissa desceu a rampa da frente de mos dadas com Louise e Emma.
    Apesar do ar umido dq inverno, o sol iluminava o verde  sua volta e ela respirou fundo, satisfeita. Era muito bom ficar ali, observando as crianas. Cada vez
mais elas se adaptavam a nova vida e se mostravam muito felizes
    Por mais de uma hora Lissa as deixou correr e brincar  vontade. To logo voltaram para dentro da casa, o telefone tocou. A agncia de empregos achara a candidata
ideal. Era uma senhora viva, sem experincia anterlr, Porm com grande disposio para o trabalho. E o principal: adorava crianas.
    Ao desligar o aparelho, uma sensao de alvio a invadiu. Com a ajuja de uma boa empregda se dedicaria mais s sobrinhas e disporia de tempo para ajudar Jol
em seu trabalho. H muito ele se queixava de no conseguir uma secretria ficiente e agora ela teria um bom motivo para convenc-lo a deix-la participar dos negcios.
Sabia que poderia ser til,de varias maneiras.
    As crianas faziam a sesta e Lissa sentou-se no sof  espera da Sra. Rose, que segundo tinha lhe informado a agncia chegaria s trs para a entrevista. Rose
lhee pareceu perfeita  primeira vista. Devia andar perto dos cinquenta anos e um sorriso largo iluminava-lhe o rosto.
    - Sra. Rose, creio que foi informadoa que temos duas fIlhas pequenas, , .
    - Ah, sim! A agncia me informou.
    - Naturalmente, no ter que se preocupar com elas. porque posso cuidar dessa parte sozinha, mas gostaria de deIxar bem claro que elas so muito importantes
para ns e queremos que se sintam protegidas e seguras nessa casa. Bem, sou da opinio de que, embora certas regras basicas de dIscIiplina sejam imprescindveis
na educao de uma criana, podemos conviver com algumas travessuras. Sabe, entrada na cozinha, brinquedos espalhados. raso Sabe, entradas na cozinha, brinquedos
espalhados.
    - Um docinho fora do horrio. . ,
    Lissa sorriu satisfeita. As palavras de Rose a deixavam mais tranquila.
    - Mas s de vez em quando.
    - No se preocupe com isso. Acredito que as crianas so
a alegria de qualquer casa que se,preze. Tive tres fIlhos e at hoje lamento que tenham crescido. Queria  ter tIdo uns vinte. Um em cada ano. Agora nao estaria sozinha.
    Rose contou-lhe algumas passagens de sua vida sImples, e cheia de amor e do quanto sentia-se carente de afeto  sem o marido e sem os filhos, que moravam no exterior.
 noIte, Lissa descreveu a Joel a tr anquilidade e que percebera em seu primeIro contato com a nova empregada e ele mostrou-se satIsfeIto.
    Parecia cansado e abatido, talvez um pouco mais magro. Uma brisa suve entrava pela janela da sala de jantar e Lissa perdeu por um instante o fio da conversa,
ao observar os traos harmoniosos daquele rosto. Apesar de tudo ele lhe causava emoes agradveis.
    - Lissa?
    Ela sacudiu a cabea e sorriu para Joel que parecia preocupado.
    - Est se sentindo mal?
    _ No, tudo bem, Joel. Vou at a cozinha buscar caf. Quer uma xcara?
    - sim, por favor.
    Ela no queria que o marido percebesse o quanto se sentia pertubada. Sensaes estranhas e contraditrias a atormentavam. Estremecia ao lembrar-se das ltimas
noites, quando vrias vezes se pegara com os olhos fixos nos contornos musculosos daquele corpo moreno, enquanto ele trocava o pijama na penumbra do quarto.
    Depois que Lissa abrira o corao uma especie de companheirismo os aproximara dia aps dia. Toda noite, depois do jantar, ficavam conversando at altas horas
da noite, descontrados, numa demonstrao de confiana mtua.
        Aquela amizade slida que se estabelecera parecia crescer com o tempo e isso os deixava muito felizes.
        Nenhum dos dois se lembrava de uma outra relao to agradavel e proxima em suas vidas. No entato, Lissa jamais tinha experimentado o sentimentos que ele
lhe inspirava e agora se perguntava a toda hora o que mais a estimulava na personalidade daquele homem. Ele fazia seu corao bater mais forte, despertava-lhe ansiedades,
suores e uma infinidade de sensaoes que no conseguia entender.
    Nas raras ocasies em que estivera com Joel, antes da noite em que ele a surpreendera com Gordon, lembrava-se de ter desenvolvido uma especie de paixo infantil
por ele. Em sua imaginao, criara fantasias de prncipes e princesas e ele sempre tomava parte como personagem central. Joel sempre fora visto com bons olhos por
todas as famlias da regio. Era mais do que um bom  partido, pertencia a uma classe rara de homens:, rico, inteligente, irresistvel para mulheres de todas as idades.
    De volta  sala, Lissa serviu o caf distrada. absorvida por seus prprios pensamentos, sem se dar conta de que ele a observava.
    - Tem certeza de que est tudo bem?
    - Pode estar certo que sim, estou tima... - o tremor de suas mos, porm a contradizia.
    - Estou Preocupado com as meninas, no as tenho visto com freqncia e a ltima coisa que desejo  ser um mero figurante na vida delas. No quero ser como meu
pai.
   Lissa parou a xcara de caf a meio caminho da boca e o olhou desconfiada. Jamais lhe passara pela cabea que Joel tivesse sofrido qualquer tipo de problema afetivo
com seus pais.
    - No me olhe desse jeito,  verdade! Eu e  meu pai nunca tivemos um bom relacionamento, e, embora no tenha passada por nenhuma experincia to dramtica quanto
a sua posso lhe garantir que minha infncia no foi um mar de rosas.
    Lissa comprimiu os lbios e desviou os olhos em direo ao tric que esquecera sobre o sof da sala. Ao levantar-se para busc-lo, escorregou e foi amparada
por Joel, que a fez sentr.se em seu colo.
    Aturdida, ela lutou para dominar o constrangimento, embora estivesse ansiosa para abandonar-se ao aconchego daquele abrao. Joel beijava-lhe a nuca e a mantinha
apertada contra si; era evidente que sentia falta de calor humano. Ela precisava reagir, defender-se da estranha emoo que a tomara de surpresa.
    - Joel....
    - No, no se v. Deixe eu te mostrar o que pode perder se continuar fugindo.
    Muitas vezes ela fora beijada antes, mas no daquela maneira. A boca sensfvel e carente de Joel pressionou de leve seus lbios trmulos. Lissa sentia-se flutuar.
A sensao era de que caminhava pelas nuvens. Por um momento pensou em enlaar aqueles msculos fortes e poderosos. A vontade era de afagar-lhe os cabelos macios,
entregar-Se inteira ao aperto gentil daquele abrao.
    No, ela, no queria sair, no precisava disfarar. Joel
a conhecia, sabia que no poderia ir muito longe, no
era necessflo fugir.
    Um desejo febril explodiu em todo o seu corpo, invadiu
seus sentimentos e a sacudiu do marasmo em que sempre ha vivido.
    De repente Joel a libertou e ela acordou. Lissa fechou os olhos para qe ele n pudesse ver o quanto a havia provocado. Tinha vergonha e temia que ele percebesse
o poder que exercera sobre ela naquele breve e maravilhoso momento.
    Lissa no sabia o que fazer. A emoo contrala1he o estomago Queria eflrflar alguma coisa, qualquer assim to que os trouxesse de  ' iealida4e. Poderiam falar
sobre o tempo, sobre os negcios ou, quexsabe sobre a educao' das meninas.
    - Lissa O olhar de Joel i*cariciav o rosto dei.
    -Humm?
    - Teremos que repetir esta cena outra vezes, no acha?
    -Porqu?
    - No vamos permitir que se torne pblico e notrio que nosso casamento no passa de uma farsa,
    De um salto ela se ievantou e deu alguns passos em direo  sala, mas desistiu no meio e virou-se em direao  escada. Sem conseguir ntender os motivos, sentia-se
magoada, talvez pela frieza com que ele lhe jogara aquela dura verdade em pleno rosto
    Antes de subir, parou e voltou-se para ele.
     - Joel; estou certa de que no pretende passar o resto da vida como um padre. O que vai fazer?
    - No momento tenho tantos problemas na cabea que no me sobra espao para pensar em sexo. Digamos que por enquanto no quero incomod-la com esse assunto.
    Na manh seguinte, Joel levou algum tempo para que  Louise aceitasse o fato de que ele no voltaria cedo para contar-lhe uma histria na hora de dormir. Lissa
observou os dois com carinho. O jeito como ele contornava a manhas da garotinha fazia crer que era seu verdadeiro pai; que de fato nascera talhado para a paternidade.
Na sada a sobrinha no precisou chamar a ateno do tio, ele mesmo tomou a Iniciativa de beijar Lissa.
    Como ele seria, na intimidade. gentil ou agressivo? Seu  prprio corpo respondeu de um modo to intenso e inesperado que Lissa enrubesceu Era preciso frear aqueles
impulsos antes que causasse a si prpria uma enorme decepo
    O dia transcorreu como outro qualquer, muito servio e muita alegria tambm. Emma e Loujse eram adorveis.  Lissa tinha se conformado com a idia de mais uma
vez esperar a chegada de JoeI at bem tarde da noite. No entanto mal deixara o quarto das crianas, quando ouviu o barulho inconfundvel do carro dele.
    Ele apareceu na sala com um sorriso largo e iluminado.
    Trazia uma garrafa de champanhe
    - Muito boa noite, sra. Hargreaves
    - Muito boa noite, sr. Hargreavrd, Pelo jeito o senhor teve um dia excelente.
    - Tive, tive sim, Lissa! Acabo de contratar o substituto de meu irmo. A partir de amanh, no precisarei ficar at tarde no escritrio, que tal?
    - Fico contente pelas meninas - Lissa sabia que seu contentameno no era s pelas meninas.
    Durante o jantar Joel a examino com uma expresso enigmtica no olhar. Perturbada, Lissa imaginou que estivesse vendo coisas. Afinal, tinha tomado uma taa
de champanhe antes do jantar. Nunca fora de beber, mas Joel havia nsistido tanto que ela acabou cedendo. No, no estava enganada. Existia qualquer coisa estranha
e perturbadora naqueles olhos que se mantinham presos em cada um de seus movimentos.
    - Precisamos acabar com esse champanhe ainda hoje, para no desperdi-lo.
    - Precisamos, Joel?
    - Mas  claro!  um excelente champanhe!
    Lissa no protestou quando ele a chamou para subir. As pernas teimavam em desobedecer e a cabea girava sem parar.
    - Joel... acho que estou um pouco tonta e a culpa  sua! No devia ter me obrigado  beber.
    - Deixe disso, eu a ajudo a subir. Foi s uma taa. Com o tempo, voc se acostuma.
    Joel a conduziu at  porta do quarto e tornou a descer, depois de murmurar algo ininteligvel. Lissa caminhou com dificuldade at o banheiro e examinou seu
rosto refletido no espelho. Com gestos lnguIdos, despiu-se devagar, fascinada com a sensualidade que pela  primeira vez descobria em seu corpo. A curva suave dos
quadris bem torneados, a cintura bem marcada, os lbios de uma cor indescritvel. Sentia-se renascer para uma nova realidade, Pensou, enquanto tocava os seios lisos
e perfeitos.
    A camisola branca de algodo fino deslizou pelo corpo, dando-lhe uma sensao gostosa. Alisou o tecido... pensativa, depois empurrou com os dedos os cabelos
brilhntes para trs, divertindo-se em ver que voltavam ao mesmo lugar.
    Tinha acabado de se enfiar sob os lenis, quando Joel voltou do andar trreo.
    - Trouxe-lhe a ltima taa de champanhe! Tome, vai ajud-la a dormir melhor.
    - Mas Joel, eu..
    - Vamos menina! Eu garanto que vai lhe fazer bem. Beba, enquanto vou tomar um banho.
    Lissa sorveu devagar o champanhe, ouvindo o da ducha. Quando Joel abriu a porta do banheiro, ela o observou pelo canto dos olhos, Apenas a tolha presa a cintura
cobria-lhe o corpo moreno. Tinha que admitir que Joel era um homem lindo.
    Quando ele se deitou ao seu lado na cama, Lissa virou-se para colocar a taa sobre a mesinha de cabeceira e apagar a luz do abajur. Antes que conseguisse, no
entanto, ele segurou-lhe o brao com uma das mos e com a outra pegou a taa e a deixou cair sobre o tapete.
    Ela no conseguiu mover-se, consciente da intimidade que os aproximava e fascinada pelo contraste do moreno sobre o tecido branco da camisola. Desta vez no
queria fugir, precisava daquele abrao e daquele amor. Precisava entregar-se. Precisava aplacar a agonia e o desejo contido por tantos anos de represso. Lissa cerrou
os olhos, ansiando pelo beIjo clido, absorvente.
    Ms Joel no a beijou. Com extrema ternura a abraou contra o pelto nu.
    - Est tudo bem, Lissa, est tudo bem.
    - Joel, por favor, apague a luz.
    - A luz? Voc quer mesmo que eu a apague?
    -Eu..
    - Lissa, por qu?
    Ela no conseguia responder quela pergunta.
    - A gente no tem nada do que se envergonhar. - ele continuou, enquanto a acariciava - Olhe seu corpo, olhe o meu... No so lindos?
    O momento era mgico. Lissa tinha conseguido relaxar e agora sentia com prazer a suavidade da pele dele contra a sua. Aos poucos, seus dedos comearam a tocar
aqueles braos fortes e como por milagre, no sentiu medo. Ele a beijou. Lissa no ficou surpresa, nem apreensiva. Pelo contrrio, percebia que o que estava acontecendo
entre eles era o que esperara por toda uma vida.
Fascinao: a palavra exata para o que sentia naqueles instantes. Deixou-se levar pelos movimentos lentos dos lbios de Joel contra os seus. Ele no tinha pressa.
Explorava devagar todos os seus segredos, fazendo com que arrepios a scudissem de prazer. No se preocupou ao perceber que, Joel notava o que acontecia com ela.
No estava envergonhada.
    Queria mais... muito mais. A excitao era tanta que Lissa deixou que seu corpo respondesse por ela e abandonou-se quelas sensaes desconhecidas. Com os olhos
fechados, flutuava num mundo jamais sonhado.
    - Lissa... Lissa, olhe para mim - Joel a chamou  realidade, tocando com ternura suas plpebras cerradas.
    - Joel, diga que no estou sonhando.
    - No, voc no est sonhando. S se estivermos compartilhando o mesmo sonho.
    - ... acho que no estou sonhando
    - Ento, Lissa, est gostando?
    Como resposta eIa roou o canto do lbios dele com um beijo timido.
    - Lissa... - A maneira como ele pronunciou seu nome foi nova para eia
    - Joel, voc est me ensinando a descobrir meu corpo.
    - Ensinando? - O olhar dele brilhava intensamete
    - Triste, no ? Eu tambm no o conhecia...
    - O que voc est querendo me dizer? - perguntou-lhe Joel.
    - Eu nunca me permiti conhecer o meu prprio corpo. Eu mal o olhava.
    - Lissa isto  terrvel. - Ele estava chocado.
    - , eu tambm acho terrvel. Mas com a sua ajuda acabei de descobrir sensaes que nunca pensei que existissem.
    - Sua palavras, Lissa, embora seja uma constatao dolorosa, me deixam. muito feliz.
     Aos poucos, Joel fi se refazendo da emoo que as palavras de Lissa tinham lhe causado. Mais do que nunca queria propiciar quela mulher adorvel tudo o que
lhe fora negado. Por longos momentos beijou-a com doura at que os lbios se tornaram mais audazes, percorrendo todo o rosto, a curva suave do pescoo e se detiveram
nos selos. Com suavidade tocou-lhe.  os mamilos com a lngua, pensando emociondo que era o primeiro a conhec-la intimamente. Lissa mais uma vez abandonou-se s
ondas de prazer, achando que de um momento par o outro poderia enlouquecer. Agora Joel sugava-lhe os seios de uma maneira lenta e ritmada.
    - Joel, assim voc me deixa louca..
    - Eu sei. E quero mesmo que voc enlouquea-
    Num mpeto, Lissa o abraou e procurou-lh a boca. Foi um beijo desinibido e selvagem, como se ela quisesse retribuir todo o prazer que recebia.
    - Oh, Lissa,  Lissa... Como  bom estar com voc.
     No nicio Lissa no entendeu o que estava acontecendo. Quando  se deu conta, no entanto, era ela quem o beijava e acariciava com uma nsia louca e desenfreada.
Seus lbios traavam no corpo de Joel os mesmos caminhos que ele traara no dela.
    -Lissa, por favor, continue..
    O abandono de Joel a perturbou ainda mais Era muito excitante v-lo assim entregue, pedindo carinho.
     - Sou eu quem est te seduzindo - ele lhe sussurrou nos ouvidos com a voz rouca. - No voc, diabinha.
     Lissa sorriu ao ouvir aquelas palavras. Sabia que daquele dia em diante seus pesadelos terminariam. Uma s noite, tanta ternura, tinhm acabado com todos os
truumas Ela pertencia quele homem. Sabia que o amava. E ele, o que sentiria por ela? Desejo apenas?
    - Em que voc est pensando Lissa?
    - Nada. No pensava em nada. S queria controlar um pouco toda a emob que sinto neste momento.
    - No, Lissa, no controle nada, no pare para pensar. Venha!
    Os dois se abraaram e a entrega foi total, Naquele instante, no saberiam distinguir os prprios corpos. O mundo poderia ruir l fora...
    Lissa abriu os olhos e a claridade a obrigou a fech-los em seguida. A seu lado a pequena Louise a chamava  baixinho, enquanto Emma penas observava  cena,
sentada sobre o tapete. Procurou por Joel no outro lado da cama e no o encontrou. Passava das onze horas e, com toda certeza, ele havia se levantado mais cedo e
tivera todo o tempo possvel para examin-la enquanto dormia indefesa, vulnervel
    Era uma bela manh de sbado e Lissa pensou apreeenslva que no havia razo para que Joel partisse cedo.
    - Tio Joel  no quis que a gente acordasse voc..
    - E parece que ningumm aqui obedeceu s minhas ordens. - Joel entrava  no quarto carregando uma enorme bandeja.
    o aroma de caf recm-coado espahava pelo ar. Ele no tinha esquecido de nenhum detalhe. At mesmo um singelo buqu de violetas repousava entre as gelias, queijos
e e torradas cheias de manteiga.
    Os olhos ternos de Joel encontraram o olhar tmido que ela lhe dirigiu e, por um momento, tudo em volta deixou de existir. Lissa jamais esqueceria que, embora
ele no a amasse, fazia um esforo evidente para agrad-la.  A dedicao dele  famlia que tinha formado to de repente a comovia .
    O tempo inteiro ela comparava a imagem que retivera na memria. e que por tanto tempo a perturbara, com aquele homem gentil, de convivncia amena e agradvel.
Joel cercava as  crianas e a ela de cuidados e carinhos extremados.
    O sbado significou para as meninas uma verdadeira festa. Os quatro visitaram lojas, confeitarias, parques, jardins e quem os visse to alegres e integrados
no poderia evitar uma ponta de inveja.
    Pela primeira vez em sua vida, Lissa sentia uma outra espcie de medo. No era mais aquele terror que lhe causava pesadelos e noites de insnia. No. Agora sentia
o medo de  amar, de sofrer, o medo do novo.
    Foi um fim de semana inesquecvel e Lissa imaginava por quanto tempo desfrutariam da paz e do companheirismo que construiam pouco a pouco. At quando Joel suportaria
viver ao lado de algum a quem no amava?
    Na segunda-feira de manh, Rose chegou cedo e muito
animada. Pela ateno que a nova empregada dispensou
s duas meninas, Lissa, pde perceber que havia feito a escolha certa.
    Depo do passeio matinal e do almoo, as crianas descansavam como de costume, e Lissa tratava de atualizar a correspondncia de JoeI quando o telefone tocou.
    A voz feminina que perguntava por seu marido era fria e Lissa sentiu por ela uma antipatia instantanea
    - Lissa.. Ah, sim, aqui  Marisa Andrew. Descu1pe,
esqueci-me de que Joel agora  um homem casado. Ele
e meu marido so amigos de infncia, mas h muito tempo no nos vemos, desde o acidente que levou seus pais e seu irmo.
    A mulher no parava de falar e Lissa esperava pacientemente que ela lhe desse uma chance.
    - Lamento, senhora, mas meu marido no est.
    - Ah, claro, deve estar no escritrio a essas horas. Bem,  acho que posso deixar-lhe o recado. Telefonei para convid-lo para jantar aqui em casa . Lgico, espero
que venha com ele.
    Aps marcarem a data e desligarem, Lissa  ficou imaginando por que tivera a impresso de que a outra a havia tratado com desprezo.
    Quando Joel retornou  noite e soube da ligao, limitou-se a dizer que Marisa havia sido sua namorada antes de casar-se com Peter, um amigo desde os tempos
de colgio.
Lissa experimentou pela primeira vez o gosto amargo do cime e a sensao a deixou apreensiva Sabia que mais cedo ou mais tarde Joel perderia a pacincia e desistiria
de tentar adapt-la a uma vida normal. Isto o levaria a procurar alguma relao menos complicada com alguma mulher que se dispusesse a proporcjonar-lhe momentos
de prazer. Marisa Andrew ou outra qualquer, poderia servir-lhe de amante.
    Aquela nica noite de amor no lhe dava garantia nenhuma quanto ao futuro. Para ela, havia sido a coisa mais rnazvjlhosa que lhe acontecera,, mas, e para Joel?
Por que ele no a tinha procurado mais?
    Com o passar dos dias, como Lissa tinha previsto, Joel
tornou-se distante e indiferente. No que a tratasse mal, ao contrrio, mas j no havia calor entre eles.
    Aquela intimidade inicial tinha terminado
    Na quinta-feira,  dia combinado para o jantar em casa dos Andrews, Lissa teve a idia de tentar modificara  situao e pediu a Rose que cuidasse das crianas
para que pudesse sair e fazer compras.
    De repente, sentia-se ansiosa pra reagir perante aquela inexplecvel frieza do marido. Se tudo continuasse como estava seu corao explodiria
    Em pouco mais de duas horas chegava a Londres, velha e querida Londres, cheia de vitrinas fantstica, grandes cadeias de lojas, letreiros luminosos de tdos os
tamanhos e gente, muita gente.
    Lissa se deu conta de jamais ter se deixado levr pelo consumismo antes, talvez porque nunca lhe sobrasse dinheiro para extravagncias, mas era preciso que se
esquecesse do passado e acreditasse em si mesma.
    Primeiro foi ao cabeleireiro e mandou cortar os longos cabelos loiros. Fizeram-lhe um penteado moderno e, quando se olhou no espelho, Lissa mal reconheceu aquele
rosto rejuvenescido, emoldurado pelos fios assimtricos.
    Em seguida foi procurar um vestido. Ao sair da luxuosa casa de modas, carregada de embrulhos, procurando o automvel que havia deixado nas imediaes, Simon
Greaves em pessoa surgiu  sua frente.
    - Lissa! Que prazer! Mal pud acreditar em meus olhos quando a vi... Mas  voc mesma!
    - Ol Simon. H quanto tempo.
    - E ento, como est se saindo como bab? Onde esto as crianas?
- Simon, deixe de ironias! Isso no combina com voc. Vim at aqui para fazer algumas compras e deixei Emrna e Loulse. aos cuidados de uma boa governanta. E voc,
como vai?
    - Ora... por que no sentamos ali adiante e tomamos um caf juntos?
    Ela o seguiu sem muito entusiasm. Simon escolheu a mesa mais prxima da janela que conseguu e no parou mais de falar sobre seus novos projetos. Dizia que
vinha obtendo muito sucesso e estava investindo grandes somas em imveis e aes. Lissa o observava com um sorriso amarelo, imaginando o que ele pretendia com tanto
falatrio sobre sucesso e fortuna. Simon estaria, insinuando que ela aceitara a proposta de Joel por dinheiro?
    - Agora, porque no vamos at meu apartamento e conversamos sobre os seus problemas? - Simon segurou-lhe as mos sobre a mesa, fingindo no perceber que ela
no se mostrava nem um pouco receptiva s suas investidas ousadas. Na certa, aquele tolo imaginava que desde que conseguira o status de casada, ambicionado por tantas
mulheres, j no teria problemas em aceit-lo como amante.
    De repente, Lissa sentiu-se perturbada pela estranha sensao de que algum a observava atravs da janela e retirou com pressa suas mos das de Simon. Seus olhos
desviaram-se instintivamente para a rua, contudo, o que conseguiu ver foi a metade da perna de um passante qualquer que se afastava.
- Simon, no sei o que tem em mente e nem creio que precise saber, mas se existe realmente algum problema para discutirmos ter que ser em outra oportunidade, j
estou atrasada. - No esperou que ele respondesse e o deixou ali parado, um tanto surpreso, a mo direita estendida para o vazio.
    Ao chegar em casa, Lissa constatou aliviada que Joel ainda no tinha voltado do escritrio. No queria que ele a visse antes que estivesse pronta.
    Emma e Louise correram ao seu encontro, assim que abriu a porta. Ela as abraou e beijou, satisfeita porque estavam dispostas, bem arrumadas e felizes.
    Lissa no pde dar muito ateno s crianas, porque precisava se vestir e maquilar-se sem perda de tempo.
Depois de um chuveiro rpido e de um breve relaxamento, Lissa comeou a se arrumar com cuidado.
    Sentia-se a estrela de um filme de amor, a mulher apaixonada que buscava conquistar o seu homem.
    O  crepe delicado de um verde suave, quase branco, deslizou-lhe corpo abaixo, realando-lhe as curvas bem feita
de um manequim, As meias de seda, no mesmo tom do vestido, davam o toque requintado com que sonhara
    O ruido da porta que se abria a fez desviar-se bruscamente da prpria imagem refletida no espelho.
    - Est pronta? Preciso me apressar,  no pude deixar o escritrio antes, mas creio que no levarei mais do que quinze minutos para tomar um banho e vestir qualquer
coisa.
    - Joel...
    Ele no havia lanado um olhar na direo dela. Lissa sentiu o desespero crescer, enquanto ouvia o barulho do chuveiro. Procurava detectar o momento exato em
que ele tinha -se transformado naquele homm frio que nem a beijava mais ao chegar do trabalho. O que teria feito de errado pra prejudicar o relacionamento ameno
e agradvel que vinham construindo, quela situao quase constrangedora? -
    Lgrimas brilharam nos olhos de Lissa e ela correu para enxug-las antes que estragassem a maquilagem que levara tanto tempo para fazer. Decidida, encaminhou-se
ao banheiro achando que precisavam conversar.
    -Joel
    - Algum problema?
    - No, nenhum problema - O olhar frio que ele lhe dirigiu fez seu mpeto esmorecer. Sem jeito ela engoliu em seco, mas antes que tornasse a abrir a boca,. ele
a cortou.
    - Gostaria que esperasse l embaixo; se no se incomoda.
    Joel tinha permanecido em silncio durante todo trajeto at a residncia dos Andrews. Lissa no ousou quebr-lo.
A casa mais parecia um castelo. Ficava afastava da rua cercada por um parque cheio de rvores altas e copadas Um lugar muito estranho. A atmosfera sombria combinava
com os tristes pressentimentos de Lissa.
    O casal veio receb-los na porta e Lissa notou que Peter mostrava um ar cansado, angustiado a contrastar com a
euforia forada da mulher loira e escandalosa que agora abraava-se a Joel com uma intimidade irritante.
    Lissa observava a cena com raiva. Desde o incio no tinha apreciado os modos extravagantes da outra.
    - Joel, querido, esqueceu-se de apresentar-nos sua esposa.
    As apresentaes foram to formais e frias que Lissa sentiu-se mal. Continuou incapaz de tirar os olhos do rosto de Mrisa, imaginando como ela conseguia manter
o sorriso cnico nos lbios muito pintados.
     - Querida, no sabe a sorte que teve - Maris comentou, enquanto entravam. - Conseguiu fisgar o
mem mais desejado de toda a Inglaterra. Joel lhe disse
que fomos namorados? Veja s o perigo que correu! Por pouco; no lhe roubo o prncipe encantado, mas ainda h tempo no  Joel?
    Lissa se indagava por quanto tempo suportaria a provocao da mulher at que Peter tomou-lhe o brao e a conduziu at um salo iluminado por vrios candelabros
de prata espalhados em pontos estratgicos.
    - Vamos deixar aqueles dois de lado. Que tal me contar como tem sido a vida ao lado do velho Joel?
    Lissa parecia um pouco assustada e insegura. Olhou em volta sem prestar muita ateno no que Peter dizia. Seu pensamento tinha ficado para trs, no hall de entrada.
Imaginava o que Joel e Mansa estariam conversando naquele momento. Depois de algum tempo, as vozes dos dois indicaram que se aproximavam e Lissa ainda ouviu o final
da conversa.
    - Ora, vamos, Joel, sabemos que se casou apenas pelo bem de suas sobrinhas, o que de certa forma entendemos, querido.
    Lissa esperou que ele negasse e olhou para trs a tempo de ver Marisa sussurrar qualquer coisa que o fez rir. Ele nem ao menos se deu ao trabalho de ser delicado
   Joel e Marisa atravessaram o salo sem olhar para os lados e ela os seguiu com os olhos at que desaparecessem por um corredor repleto de quadros espalhados pelas
parredes.
    Quando seu olhar magoado voltou se para Peter, ela vislumbrou a expresso penalizada do amig de Joel e procurou disfarar, mas no conseguiu engan-lo.
    - No se deixe impressionar pelo comportamento de minha mulher.  o jeito dela, Lissa. Quando conheci Marisa, ela estava muito entusiasmada por Joel, mas apesar
de eu no ser to brilhante e desejvel quanto o nosso amigo, consegui roub-la dele.
    - Voc a roubou?
    Sim - ele riu, com um brilho inesperado nos oihos - Bem, mais ou menos. Joel no se esforou muito para impedir.
    A noite transcorreu sob um clima tenso. Lissa tinha a sensao que o jantar nunca terminaria. Uma infinidade de vezes se perguntou por que motivo Marisa o deixara
escapar, j que se mostrava t maravilhada por cada gesto dele. Ela se insinuava sem o menor constrangimento, e Peter no via ou fingia no ver.
    A madrugada avanava quando finalmente tomaram o caminho de volta. Lissa sentia-se to deprimida que mal conseguia falar.
     A seu lado, Joel mantinha-se distante, muito distante. Talvez estivesse de volta ao passado, para os braos de Marisa. Foi somente quando se deitou que se disps
a um comentrio cruel.
    - O que houve com voc essa noite, Lissa? Tratou meus melhores amigos quase com desprezo.
    Ela dispensou-lhe um olhar cansado e inocente.
    - No acha que est exagerando?
    - Olhe, por um momento cheguei a pensar que estivesse com cime  de Marisa.
    - Cime? No exatamente. Me senti humilhada e acho que devia ter pelo me um pouco de considerao por seu amigo de infncia. Sua boca ainda est manchada de
batom.
    Joel passou a mo nos lbios com raiva.
    - Ele conhece muito bem a mulher com que se casou.
    O rosto de Lissa ficou plido de repente e Joel segurou-lhe  o brao com firmeza.
    - Est passando mal? - Ele realmente parecia preocupado.
    - Talvez tenha abusado um pouco daquelas comidas
exticas. Meu eslmago parece dar voltas, mas vai passar. Por favor, apague a luz, Joel. Estou muito cansada.
    - Espere um Pouco. - Ele levantou-se e foi apanhar no armrio um estojo escuro. - Quase me esqueci de que hoje  seu aniversrio Tome, isto  seu.
    Lissa o encarou com espanto. Suas ms trmulas abriram a caixa e seus olhos depararam com um colar de prolas que brilharam  luz do abajur.
    - So lindas!
    - Combinam com voc.
    Os olhos de Lissa o fixaram por um momento. A expresso terna que captou no durou mais que um segundo e em seguida a fisionomia dele endureceu.
    - Estive em Londres hoje  tarde e custei a encontrar um presente digno de sua beleza. Jamais imaginei que iria me arrepender.
    - Do que est falando? - Lissa tocava o colar.
    - Ainda no sabe ou est se fingindo de ingnua?
    - No estou entendendo..
    - Lissa, eu os vi. Vi quando Simon segurou suas mos naquele restaurante. Vi o quanto estavam enlevados e tive que me conter para no interromper a cena to
romntica.      - Joel..
    - No diga nada, por favor. Entendo que deve estar sendo duro para voc manter-se, afastada dele. Mas eu avisei, Lissa, no admito que me exponha ao ridculo.
    Ela arregalou os olhos, estarrecida. Tudo comeava a fazer sentido: o modo como ele se tornara frio de repente, o comportamento estranho durante o jantar.
    - Foi por isso que fez questo de deixar bvio que voc e Marisa so amantes, Joel? Porque me viu com Simon e criou tantas fantasias na cabea?
   -  Ento , vai negar que correu para os braos de Simon?
    Os dois se olharam com rancor.
    -  voc quem est dizendo. Parece que entende do assunto, no ? Est acostumado a se atirar nos braos de suas amantes e nem se d ao trabalho de dosfarar.
    - Olhe aqui, mocinha, se est atrs de aventuras, acho que posso resolver o seu problema. Nem precisa sair de casa!    - Joel atirou-se sobre Lissa, que comeou
a se debater, desesperada.
    - Pare! Por favor, pare com isso! - Ela pensou que tinha ido longe demais. Deveria ter desfeito o equvoco e em vez disso mexera com os brios de um homem como
Joel.
    No, ela no queria ser amada daquele jeito bruto, como se fosse uma luta entre dois animais enraivecidos. EIa o queria delicado e meigo, como na noite em que
se entregara pela primeira vez.
    - Joel! Solte-me!
    De nada adiantaram seus protestos. Joel tentava arrancar-lhe a camisola e eia se protegia com as mos sobre o peito, virando de um lado para o outro at perder
a fora,. Foi s quando caiu num pranto convulsivo ele a deixou, sentando-se a seu lado, com o rosto entre mos.
   - Perdoe-me. No sei onde estava com a cabea. Um siIncio doloroso instalou-se entre os dois. Joel esperou que ela dissesse qualquer coisa e, quando se deu conta
de que estava quieta demais, olhou para o lado. Viu-lhe o rosto plido e suas mos apertaram-se contra o estmago.
    - Lissa? O que houve? .
    Nenhuma resposta. Assustado, Joel tocou-lhe as faces brancas, lvidas. -
    - Lissa! Est se sentindo mal?
    Desta vez ele no esperou resposta e corru at a porta.
Poucos minutos depois ele voltava com uma xcara de ch.         - Beba isto, vamos! - pressentindo que ela no se moveria Joel aproximou a xcara de seus lbios,
forando-a a beber o lquido quente.
    Pouco a pouco as cores foram voltando quelas faces marcadas peo pavor.
    - Deite-se agora, vou cobri-la e apagar a luz.
    Lissa obedeceu em silncio. Seus olhos fecharam para aquele dia horrvel.
    As primeiras luzes da manh despontavam pela janela. Aquele longo pesadelo talvez nunca mais terminasse...
    Lissa olhou para o rdio-relgio na mesa de cabeceira. Quase onze horas Ao levantar-se sobressaltada, com a cabea pesada como chumbo, percebeu que seu estmago
ainda doa, mais at do que na noite anterior.
Depois de tomar banho e aprontar-se, desceu as escadas com dificuldade. No havia nenhum barulho ou qualquer indcio de que Joel e as crianas estivessem por perto,
e Lissa agradeceu a Deus, em silncio. No gostaria de encar-los depois da terrvel cena da vspera. Aquele homem carinhoso e gentil que a cobrira de atenes no
inicio do casamento, no passava de uma doce lembrana. O Joel de agora era o bruto que sempre imaginara.  Um cheiro forte de bacon frito chegava da cozinha e Lissa
precisou apoiar-se no corrimo para no cair. Seu estomgo parecia querer vir-la do avesso.
    Assm que abru a porta da cozinha Rose parou de mexer a frigideira e a olhou com ar de interrogao.
    -  No  nada, Rose. Acho que comi alguma ontem  noite, que no me fez bem.
    - Tem certeza de que  isso mesmo?
    A principio, Lissa no entendeu o ar malicioso com que a empregada fez a pergunta, mas aps alguns segundos se deu conta da insinuao e imediatamente procurou
a cadeira mais prxima.
    Cus, seria possvel que estvesse grvida? Claro. Jamais pensara em usar mtodos contraceptivos, nunca precisara deles. E justo agora que seu relacionamento
com Joel andava to abalado!? No podia acreditar.
    Emma e Loiuise aproximavam-se da copa. Lissa ovia-lhes as vozes cada vez mais perto e apressou-se em fingir que mastigava qualquer cisa. No podia deixar que
Joel descobrisse que no estava bem,  pois queria ter certeza absoluta do que se passava com ela.
   Seus olhos depararam com a expresso acusadora que ele lhe dirigia, o que a fez lembrar-se do passado, do quanto aquela expresso cruel lhe fizera tanto mal.
    O telefone tocou no exato momento em que ela ia perguntar-lhe alguma coisa e Joel correu para atender. Lissa sentiu o corao apertado, a respirao difcil.
Talvez fosse Marisa..
    No entanto, segundos depois ele gritava seu nome e Lissa caminhou at o telefone, intrigada.
    - Para voc. Adivinhe quem ?
    O olhar de Joel parecia queim-la. Inquieta, Lissa recebeu o aparelho das mos dele.
    - Lisda,  voc?
    - Simon... como vai? - Por que ele insistia em falar com ela?
    - Quero lhe pedir desculpas pelo meu comportamento
indecente de ontem.
    Lissa ouviu em silncio, consciente da presena de Joel a uma curta distncia.
    -- Lissa, est me ouvindo?
    - Sim, estou.
    - No quer alnioar comigo para provar que me perdoou?
    - Eu... lhe telefono. -
    Simon percebeu que el estava pouco  vontade e no insistiu. Lissa desligou pensando que estava brincando com fogo, proyocndo a raiva de Joel. A nica exigncia
dele para o casamento havia sido fidelidade. No entanto, se queria uma esposa fiel, no mnimo, precisava, dar em troca sua lealdade. E ele no havia se mostrado
nem um pouco leal ao deixar claro o interesse por Marisa na noite anterior
    Durante todo aquele dia, Lissa agiu como um automato. A sensao de angstia, aquela nusea incomum que no a abandonava, as recordaes da ltima noite, tudo
isso a deixava muito infeliz. Agradecia a Deus ter encontrado algum to responsvel e gentil para cuidar das crianas. Sentia-se incapaz de qualquer de trabalho,
por mais simples que fosse.
    Rose tinha sido uma ddiva, um anjo cado do cu para ajud-la e compreend-la.  Vez por outra a surprendia com um olhar condodo lanado em sua direo. Talvez
tivesse percebido que Lissa sofria com as ausncias prolongadas do marido.
    Dias e dias se passaram sem que ela sequer o visse. Joel saa bem cedo; antes que eia acordasse, e s voltava quando ela j dormia, vencida pelo cansao.
    Ela o esperava todas as noites e se mortificava ao imagin-lo junto a Marisa. Agora que descobrira que o amava, agora que entendera por que sofria, quando ele
no estava por perto, j no tinha esperanas de algum dia ser correspondida e poder entregar-se a ele sem reservas.
    Seu estado de sade se agravava e por diversas vezes Rose a advertiu de que devia procurar um mdico. Finalmente viu-se obrigada a se render s evidncias.
    Numa manh de frio intenso, em que a neve cobria quase toda a estrada, Lissa aproveitou que as crianas dormiam at mais tarde e marcou com o dr. Christian,
um mdico que a acompanhava desde a adolescncia
    No havia dvida, estava grvida de dois meses. Depois de ouvir uma extensa lista de recomendaes, ela deixou o consultrio chorando. A gravidez a deixara multo
confusa...
No caminho de volta para casa, no conseguiu pensar em nada que no tivesse ligao com a novidade e de como Joel reagiria, quando lhe revelasse que seria pai.
    No esperava nenhum tipo de milagre, contudo tinha esperanas de que ele pelo menos voltasse a trat-la com um pouco mais de ateno.
    Sabia que poderia atrapalhar os planos dele. Pela maneira como o marido a evitava, conclua que o romance com Marisa estava indo muito bem.
    Lissa sonhara com um filho durante toda sua vida, mas sempre se esforara para esquecer o que julgava um sonho impossvel, mas agora era real e... irreversvel!
    Distrada em seus devaneios, no percebeu a luz do farol de um carro  que dava sinal numa curva fechada da estrada. No teve tempo para impedir a coliso. O
outro vinha devagar, mas ela s se deu conta em cima da hora e a freada brusca fez com que as rodas deslizassem sobre a neVe. Lissa no viu mais nada.
    Ao acordar, estava deitada sobre sua cama Joel, a seu lado, tinha uma expresso de expectativa no rosto
    - Como est se sentindo?
    - Eu... no sei. . ., o carro...
    - Eu sei, eu sei... Graas a Deus era eu quem dirigia o outro carro. Se fosse um outro qualquer, poderia estar ainda l na estrada, esperando por socorro.
    - Joel;.
    - Onde estava com a cabea, hein? Dei sinal antes de fazer a curva, mas voc nem ligou!
    - Me desculpe.
    - J chamamos o mdico. Rose est l embaixo com as crianas. Elas esto nervosas, chorando muito..
    - Estou bem, Joel, no precisa. .
    - Tente ficar acordada, Lissa, no deve dormir. Pode ter sofrido algum traumatismo craniano, no quero que desmaie outra vez. Vou descer para acalmar as garotas.
O mdico j deve estar chegando.
    DepoIs que ele saiu, Lissa levantou os olhos, apreensiva. Por enquanto no desejava nenhum mdico por perto. Joel no devia saber de nada at que o preparasse
para receber a notcja.
    Os olhos comearam a pesar e ela no pde resistir  tentao de fech-los.
    O grito a fez sobressaitar Ela abriu os olhos, assustada,
    - Lissa
    - Graas a Deus o mdico est aqui! - Joel trouxe um pano mido e passava na testa machucada da esposa.
O dr. Christian ps a maleta sobre a cmoda e caminhou em sua direo.
    - Doutor, eu... - Lissa precisava falar com o mdico e pedir segredo a respeito de sua gravidez.
     - Ela sofreu um acidente com o carro e desmaiou. Ser que aconteceu alguma coisa mais grave, doutor?
    - No, acho que no. Sente alguma dor, querida?
    - Nada, apenas enjo.
    - Sei, sei. Bem, vamos fazer alguns exames de rotina: presso, temperatura, mas creio que no haja nada alm do que j sabemos. Desmaios e gravidez andam juntos,
sempre foi assim. Se alguma coisa anormal acontecer,  poderemos fazer umas radiografias, mas o aspecto dela  bastante saudveL
    LIssa baixou os olhos para no assistir  reao estupefata de Joel. Ele caminhou at a janela visivelmente perturbado.
No era assim que ela planejava dar-lhe a noticia, mas o velho dr. Christian no poderia adivinhar.
    Aqueles olhos dourados mudavam de expresso com uma rapidez inacreditvel. Por diversas vezes, Joel tentou comear uma frase, mas os sons emitidos no passavam
de monossilabos soltos, sem nenhum sentido.
    Recostada na cabeceira da cama, Lissa procurava uma idia capaz de defend-la das jnmeras acusaes que adivinhava iminentes.
    De repente, Joel parou no meio do quarto e ps as mos na cintura:
    - Lissa pode me dizer porque no me informou sobre seu estado?,
    ---No sei, Joel, acho que queria ter certeza do que fazer antes
    Agora ele parecia profundamente magoado.
    - Lissa est me dizendo que talvez no queira este filho?        - E voc, o que me diz?
    - Eu... eu preciso dele, Lissa.
    Lissa desviou os olhos, pensativa. Talvez ele no avaliasse bem o peso da responsabilidade que iria assumir . Significava mais um vnculo com algum a quem no
amava, um empecilho para a vida livre a que estava acostumado.
    - Joel, sabe o que est me pedindo?
    - Sei. E temo que voc no saiba, isto sim. Quero deixar bem claro que jmais admitirei outro pai para o meu filho, que nunca lhe concederei o divrcio.
    Intrigada, Lissa virou a cabea para ele, sem entender o porqu da ameaa. Seria possvel que Joel ainda estivesse com a idia fixa de que ela sentia alguma
atra por Simon? Mordeu o lbio e o olhou bem dentro dos seus olhos. Talvez pudesse tirar algum proveito daquela desconfiana. Quem sabe, provocar-lhe cime?
    Agora possua um trunfo, carregava um filho de Joel em seu ventre e j no lhe parecia to absurda a idia de despertar-lhe o interesse.
    - Lissa, ainda no me disse se concorda com meus termos. Esse filho tambm  meu!
    - No estamos tratando de nenhum negcio!
    - Eu sei, mas  preciso que prometa que no vai ver aquele crpula outra vez.
    - Afinal, de quem voc est falando?
    Joel abriu os braos, indignado e seu olhar transmitiu impacincia.
    - Que tal parar de brincar comigo, moa?
    Lissa baixou os olhos e fingiu submisso.
    - Se est se referindo a Simon, posso lhe assegurar que est redondamente enganado. A nica vez que nos vimos depois do nosso casamento foi por puro acaso.
    - Ah! No me faa rir.
    -  srio.
    Joel sentou-se na beirada da cama e apoiou s cotovelos sob as pernas. Parecia cansado e abatido, e Lissa  desejou afagar-lhe os cabelos lisos e brilhantes.
Seria a idia da maternidade que lhe despertava tanto carinho? Ou seria aquele amor que ela teimava em alimentar?
    - Lissa, Deus sabe que no planejei nada disso, mas...
    - Mas agora que estou realmente grvida e ambos concordarno em no interromper a gravidez, quer que eu jure que jamais nos divorciaremos,  isso?
    - Acha difcil cumprir este trato?
    - Agora sou eu quem lhe digo Joel: no me faa rir!
    Por que mantinha essa atitude falsa de sarcasmo? Por
no lhe jurava mil vezes que daria qualquer coisa para descbrir um meio possvel de prend-lo ao seu lado para sempre?
    Joel levantou-se devagar, passou a mo pelos cabelos e saiu do quarto, sem dizer nenhuma palavra:
    Trs meses se passaram. As rvores recuperavam o verde que o inverno lhes roubara e o sol derretera a neve dos campos e dos coraes.
    Lissa j no esperava obter de volta o marido carinhoso que mal conhecera no incio de seu casamento, Conformara-se em, pelo menos, t-lo a seu lado. todos os
dias, e a repartir com ele a mesma cama, apesar da distncia a que ele a obrigava.
    Seus dias se tornaram amenos, pacficos e se resumiam em levar Louise at a escola toda manh e ir busc-la  tarde. O resto do tempo cuidava de Emma e fazia
o enxovaizinho do novo beb.
    Joel tinha deixado de voltar para casa de madrugada. Estabelecera um pacto silencioso de lealdade em respeito  gravidez da mulher. No entanto, era frequente
que Lissa o procurasse no escritrio durante o dia e recebesse a informao de que ele havia sado. Nunca sabiam informar para onde tinha ido e a que regressaria
    Um dia, Lissa resolveu aproveitar o sol e Ievar Emma para passear at um pouco mais tarde. Ao voltar para casa ouviu Rose ao telefone:
    - Ela ainda no voltou.., no, no sei o que aconteceu.
    Lissa balanou as chaves do carro para dar sinal de sua presena e Rose se voltou para a porta de entrada. '
    - Oh, espere, por favor. Ela acabou, de entrar.
    Sem atinar com quem falaria, Lissa recebeu o aparelho das mos da empregada.
    - Sim,   Lissa Hargreaves.
    - Lissa. Ah, graas a Deus! Sabe onde est Joel?
    - No fao a menor idia.
   - Querida, precisa encontr-lo para mim. Peter e eu acabamos de nos separar e.... por favor, preciso ver Joel com urgncia!
    Ela viu a sala rodar  sua volta. A paz que pensara ter conseguido, escapara sem que pudesse det-la. Lissa
pressentiu que um novo ciclo de pesadelos estava para comear.
    Rose a observava de longe, pronta para socorr-la, caso necessitasse. No lhe fora difcil perceber que as coisas no andavam muito bem entre os patres e, aquele
telefonema, a palidez de Lissa, tudo confirmava suas suspeitas.
    Lissa se comprometeu a transmitir o recado e desligou o telefone aturdida. Marisa tinha se desvencilhado do nico obstculo que a separava de Joel. Com toda
certeza era por isso que tinha tanta urgncia em encontr-lo. Seus olhos encheram-se de lgrimas. Estava cansada sem foras para lutar contra mais uma armadilha
do destino. A vida lhe impusera toda sorte de dificuldades: traumas, medos e  frustraes. Na tentativa de super-los, at crescera como ser humano. Seu reencontro
com Joel fora mais uma batalha cheia de fracassos e poucas vitrias. E agora, o  equilbrio que outra vez tinha conquistado, apesar de pouco satisfatrio, poderia
vir a ser ameaado.
    Como Joel reagiria perante aquela situao? Ele seria capaz de atir-la no pior dos abismos, quando aguardava
chegada de um filho seu?
    Lissa subiu at o quarto e procurou relaxar. No conseguiu. Esperava o pior e ainda assim no lhe restava outra alternativa. Aquele beb que j amava tanto no
merecia ser  rejeitado antes mesmo de nascer. Precisava lutar, lutar
por ele, por Emma e Loulse. Lutar pelo seu prprio e desesperado amor.
    O som de passos no corredor a despertou do momentneo torpor em que mergulhara.
    Joel tinha voltado mais cedo do escritrio. Talvez Marisa o tivesse encontrado, e ele no pudera esperar at a noite para lhe dizer que ia embora. . .
    Assim que entrou no quarto a pergunta lhe escapou:
    - Esteve com Marisa?
    - Acabo de ligar para ela. Vou v-la esta tarde.
    Lissa empalideceu. Julgava estar preparada para tudo, mas aquela dor aguda no peito era um pessimo sintoma. No! Joel testemunharia seu sofrimento, no daquela
vez.
    Ele trancou-se no banheiro e em seguida ela ouvia o
barulho da gua. Joel estava ali, bem perto, pelo menos
por enquanto. Lissa sentia as plpebras pesadas e encolheu-se toda na cama. Pouco depois dormia um sono profundo.
    Emma a distraiu durante toda a tarde. A menininha tinha se desenvolvido bastante naqueles meses. Lissa gostava de ouvi-la chamar de mame com graa e naturalidade
    Pobre criana... mal conhecera os verdadeiros pais e j corria o risco de perder aqueles com quem aprendera as primeiras palavras; mais um problema em sua vidinha
inocente!
    - Vamos, Emma,  hora de irmos buscar Louise no colgio.
    Os olhos marejados fugiram do rosto ingnuo que lhe sorria Precisava controlar-se. Podia enganar a pequena mma, mas jamais disfararia o bastante para escapar
 incrvel sagacidade da mais velha
     Joel chegou pouco depois das oito e parecia exausto. Seu comportamento era o mesmo dos ultimos tempos: frio e taciturflo. Ela tentou ser natural, ao perguntar-lhe
se queria jantar:
    -- J jantei .
    Depois. disso, Joel se fechou em seu mundo, sem maiores comentrios e Lissa se viu obrigada a respeitar-lhe o silncio
    Dias e dias se passavam sem que trocassem mais que
simples cumprimentos formais e lacnicos. Lissa achava que iria enlouquecer, at que uma noite ele no apagou
a luz do abajur como sempre fazia. Em vez disso, sentou-se na cabeceira da cama e passou algum tempo olhando para o vazio.
    Ela permanecia deitada, o olhar fixo no teto,  espera
no sabia bem do qu. Algo lhe dizia que era chegada a hora; o ar pesado, a expresso endurecida de Joel, seu corao batendo de forma desordenda.
    - Precisamcs conversar - disse ele, com frieza. Pronto! Lissa respirou fundo, o rosto em brasa. Podia tampar os ouvidos, fugir dali, gritar para no ouvir as
revelaes que pressentia prximas, no entanto seu orgulho a segurava.
    - No podemos levar essa farsa adiante. No  bom
para nenhum de ns. E  pior ainda para as crianas.
    Lissa sentiu todo o corpo gelar e puxou o lenol at os ombros.
    - Pensei que pudssemos superar nossas diferenas, quebrar o gelo  entre ns dois, mas... Bem, devo admitir
que me enganei. Quero que fique nesta casa e continue a
criar Emma e Louise . De minha parte, pretendo visit-las sempre que possvel. Quero dar s meninas o que sempre lhes dei . Nada vai mudar. E voc ter tudo de que
necessita, voc e nosso filho, mas...
    - Mas no quer mais me ver por perto. - Lissa virou rosto para que ele no pudesse v-la chorar.
     - Foi difcil para mim tomar essa deciso, e saiba que assumo toda responsabilidade pela pssima situao m
que vivemos at hoje.
    Ela sentia-se sufocar, o pranto acumulado na garganta a impedia de emitir qualquer palavra. No, le no podia
se sentir culpado por no ter sido capaz de am-la.
    - Lissa, tudo o que fiz foi...
    - Joel, voc me fez me sentir mulher pela primeira vez e eu lhe devo as maiores e melhores memrias de toda minha vida, portanto, no se culpe, no se martirize.
    - Jura? Jura mesmo que consegui despertar em voc alguma emoo?
    Ele sofria tambm, no era to indiferente quanto demonstrara todo aquele tempo. -
    - Joel, voc foi a melhor coisa que me aconteceu em vinte e trs anos de vida.
    A. frase explodiu como um vulco no meio do quarto. Liberta do segredo que a angustiava, Lissa rompeu num pranto sentido, o rosto entre as mos, seu corpo a
tremer
incontrolavelmente.
    Joel a abraou de repente e apertou o corpo frgil, sentindo contra si,  pela primeira vez, o ventre que abrigava o filho. Filho dele.
    - Lissa, entenda... no posso mais ficar longe de voc, no conseguirei respeitar a distncia que me obriga a manter. Desde a noite em que fizemos amor tenho
vivido momentos terrveis. querendo abraar voc, beij-la. Quero ter em meus braos a unica mulher que amei em toda a minha vida.
    Lissa encarou o marido, no acreditando no que acaba de ouvir.
    -  Repita isso.,..
    - Eu te amo, Lissa! Eu te amo desde que no passava de uma garota atrevida e eu precisava disfarar de todas as maneiras para no provocar um escndalo
    - Como? Lissa no entendeu as ltimas palavras.
    -  verdade. Tive muito trabalho para me conformar com a idia de que era velho demais para voc. Um homem de vinte e cinco anos no poderia ser bem aceito por
uma adolescente de quatorze, mas depois que John e Amand morreram, percebi que tinha uma chance. Pelo menos tinha um trunfo
    Lissa precia desnorteada e confusa. Joel, apaixonado por ela? Inacreditvel!
    - Pensei que.,. Marisa no  sua amante? No vai me deixar para viver com ela?
    - Marisa  a esposa de meu melhor amigo e nada mais. Estive com ela hoje para aconsejh-la a voltar para Peter Todo casamento passa por essas crises de vez em
quando,  uma questo de pacincia,
    - Ento, por que chegava to tarde todas as noites? Quase no nos vfamos
    - Pensou que estivesse com ela? No. Visitei alguns amigos, clubes, bares, andei de carro pela cidade. Tudo para tentar respeitar os seus traumas e no incomod-la
co o amor que j no podia esconder. E depois que a vi com Simon, pensei que a havia perdido para sempre.
     - Simon? Ele no significa nada para mim, acredite. Meu encontro com ele foi pura casualidade... - Lissa o olhou dentro dos olhos com adorao. - Ah, Joel,
eu no poderia mais suportar o peso deste segredo. Estou apaixonada por voc! Que bom que posso lhe dizer!
    Joel a pegou pelos ombros, e a encarou surpreso, comovido, tenso.
    - Pensei que me odiasse!
    - Tambm pensei,  Mas quando o conheci de verdade, quando descobri o homem raro, extraordinrio que dormia aqui mesmo nessa cama, bem a meu lado, descobri o
quanto estava enganada.
    Um abrao demorado, quente e desesperado os uniu, para demolir a aflio que os consumira durante tanto tempo.
    Joel afagou os cabelos de Lissa, midos de suor e lgrimas.
    - Vamos lavar esse rostinho e descer para dar uma olhada nas crianas?
    Lissa fez que sim com a cabea, com os olhos brilhando como as estrelas.
    O pesadelo terminara.
